As senhoritas à beira do Sena (Courbet, 1857): o escândalo do Salão que anunciou o impressionismo

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As senhoritas à beira do Sena (verão) (Les Demoiselles des bords de la Seine (été); neste site também Cortesãs à beira do Sena) é um grande óleo sobre tela de 174 × 206 cm de Gustave Courbet, datado de 1857. Mostra duas jovens parisienses deitadas à sombra das árvores, na margem do rio, numa tarde de verão; um barco está amarrado junto delas. Foi uma das seis obras que Courbet apresentou no Salão de 1857 e provocou um escândalo. Pertence ao Petit Palais, o Museu de Belas-Artes da Cidade de Paris (PPP377), onde está exposto.

Significado de As senhoritas à beira do Sena: o que representa

O Petit Palais explica assim: «Seis anos antes do Almoço na relva de Manet (Museu d’Orsay), Courbet dá uma interpretação contemporânea do tema clássico das figuras numa paisagem. Estas senhoritas são duas jovens da cidade, identificadas por alguns como prostitutas, que vieram se refrescar num dia de verão à beira da água. O realismo do quadro se impõe pela franqueza das fisionomias e das atitudes. A obra, que sugere mais do que conta, não deixa de ser enigmática». O próprio Champfleury, «cantor do realismo social e defensor de Courbet», acrescenta o museu, «denunciou a sedução turva destas parisienses entregues ao torpor do verão».

O que escandalizou não foi um nu, mas duas mulheres modernas mostrando a roupa de baixo. Segundo a Wikipédia, os críticos, acostumados aos nus «intemporais» em paisagens, ficaram chocados com a representação que Courbet fazia de mulheres modernas exibindo com naturalidade a roupa de baixo: a do primeiro plano, de anáguas brancas e com um xale estampado, cochila de bruços, de olhos fechados e braços estendidos; a outra, de vestido vermelho, chapéu de aba larga e um buquê de flores, apoia a cabeça na mão e olha para o espectador. Não são deusas nem ninfas: são duas mulheres da cidade, num domingo de calor, que o pintor não se dá ao trabalho de idealizar.

Contexto: o Salão de 1857 e o realismo

Courbet (Ornans, 1819 – La Tour-de-Peilz, Suíça, 1877) era, segundo a Wikipédia, o líder do movimento realista francês: desde Os quebradores de pedra e Um enterro em Ornans, de 1849–1850, tinha feito da vida contemporânea e das pessoas comuns o tema de quadros de dimensões de pintura histórica, e em 1855, quando a Exposição Universal recusou três de seus quadros (entre eles Um enterro em Ornans e O ateliê do pintor), montou ao lado dela seu próprio Pavilhão do Realismo. No Salão de 1857 apresentou seis quadros, entre eles este e as primeiras de suas cenas de caça. A cena, embora ao ar livre, foi começada em Ornans em 1856 e é «uma obra de imaginação pintada no ateliê».

Análise: luz de verão em toques largos

Uma composição de repouso

As duas mulheres ocupam a metade inferior da tela, deitadas em diagonal sobre a grama, e a folhagem da árvore fecha a cena no alto como um dossel. O rio, à esquerda, aparece entre os troncos, com o barco amarrado na margem e, ao fundo, a outra margem. O verde domina, com o branco das anáguas, o vermelho do vestido e os estampados como notas de cor. O texto do Petit Palais destaca que, «por seu tema e seus efeitos de luz pintados em toques largos, o quadro anuncia a grande fortuna pictórica das margens do Sena celebradas pelos impressionistas, uma geração mais tarde».

Antes de Manet

A comparação com o Almoço na relva (1863) é a que o próprio museu faz: mulheres contemporâneas numa paisagem, sem pretexto mitológico. Courbet chegou antes, e com um procedimento diferente: onde Manet provocaria com um nu entre homens vestidos, Courbet o faz com duas mulheres meio vestidas, cuja postura descontraída se mostrou igualmente provocadora.

Courbet e Van Gogh

Van Gogh teve Courbet entre suas referências desde a Holanda. As Galerias Nacionais da Escócia observam que seus primeiros quadros de camponeses se inspiraram «no realismo de Millet e Courbet». Em Antuérpia, em janeiro de 1886, ele escrevia a Theo que nem Rembrandt, nem Millet, nem Delacroix, «nem mesmo Manet ou Courbet», tinham tido como meta a exatidão da cor local, que quase todo mundo confunde com a boa cor (carta 552). Em Arles, em 1888, colocava «uma mulher nua de Courbet ou de Degas» entre as «perfeições calmas e modeladas» que admirava, ao lado de uma estátua grega ou de um camponês de Millet (carta 649 a Bernard). E em setembro de 1889, lembrando a visita ao museu de Montpellier no inverno anterior, falava dos «magníficos Courbet, que são maravilhas» (carta 800). Embora não haja registro de que Van Gogh conhecesse este quadro, suas mulheres não idealizadas ilustram bem o que ele admirava em Courbet.

História

O quadro foi doado ao Petit Palais em 1906 por Juliette Courbet, a irmã do pintor. Está assinado embaixo à esquerda: «G. Courbet».

Onde ver As senhoritas à beira do Sena

No Petit Palais, em Paris, no piso térreo do lado do jardim, sala 5, segundo a ficha do museu. Você encontra a lista de museus com obras de Van Gogh em onde ver os quadros de Van Gogh.

Ficha técnica

TítuloAs senhoritas à beira do Sena (verão) (Les Demoiselles des bords de la Seine (été); Young Ladies on the Banks of the Seine (Summer))
AutorGustave Courbet (1819–1877)
Data1857 (começado em Ornans em 1856)
TécnicaÓleo sobre tela
Dimensões174 × 206 cm
LocalizaçãoPetit Palais, Paris (PPP377; doação de Juliette Courbet, 1906)
MovimentoRealismo

Obras relacionadas

Fontes: ficha da obra em parismuseescollections.paris.fr (Petit Palais, PPP377); Wikipédia, «Gustave Courbet»; cartas 552, 649 e 800 (vangoghletters.org); ficha de Cabeça de camponesa em nationalgalleries.org.

Sobre esta ficha. Redigida por Jorge Torres, editor do Museu Van Gogh, e revisada em outubro de 2026. Fontes: cartas de Vincent van Gogh na edição do Museu Van Gogh e do Huygens Institute (vangoghletters.org), catálogos raisonnés de De la Faille (F) e Hulsker (JH) e a documentação publicada por museus e coleções. Como fazemos as fichas.