Cartas de Van Gogh: guia da correspondência e as cartas mais importantes

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As cartas de Vincent van Gogh são a principal fonte para conhecer sua vida e sua obra. Conservam-se 903 cartas: 820 escritas por ele e 83 que ele recebeu. Das suas, 651 são dirigidas ao irmão Theo e 7 a Theo e à esposa, Jo. Nelas, ele conta o que está pintando, por que e como, descreve cores e composições, faz pequenos esboços dos quadros e fala de livros, de outros pintores, de dinheiro e da sua saúde. Até 1886 escrevia quase sempre em holandês e, depois, quase sempre em francês (no conjunto, cerca de duas cartas em holandês para cada uma em francês); cinco estão em inglês. Todas podem ser lidas gratuitamente no vangoghletters.org, a edição crítica do Museu Van Gogh e do Huygens ING. Nesta página você encontra um guia da correspondência e uma seleção das cartas mais importantes, com links para as fichas dos quadros de que elas falam.

O que é a correspondência de Van Gogh

A edição das cartas reúne todas as que se conservam, escritas e recebidas por Van Gogh entre 1872 e 1890. Os números, segundo Van Gogh as a letter-writer, do vangoghletters.org, são estes: 820 cartas de Vincent, das quais 651 para Theo e 7 para Theo e Jo; e 83 cartas recebidas, entre elas 39 de Theo e 2 de Theo e Jo. Muitas outras se perderam: os editores calculam que faltam pelo menos 550 cartas dirigidas a Van Gogh e pelo menos 290 escritas por ele.

A primeira carta conservada é de 29 de setembro de 1872, quando Vincent, aos 19 anos, trabalhava na casa Goupil de Haia e Theo acabava de visitá-lo: «Obrigado pela sua carta, fiquei contente em saber que você voltou bem. Senti sua falta nos primeiros dias» (carta 001). A última que ele enviou é de 23 de julho de 1890, quatro dias antes de se ferir em Auvers-sur-Oise (carta 902).

Para quem Van Gogh escrevia

A imensa maioria das cartas é para Theo van Gogh (1857–1891), quatro anos mais novo, marchand na casa Goupil (depois Boussod, Valadon & Cie) e, a partir de 1881, o irmão que o sustentava. Vincent lhe contava tudo: os quadros terminados e em andamento, as dúvidas, os pedidos de tinta e de tela. Os demais correspondentes, segundo a classificação por destinatário do vangoghletters.org, são sobretudo:

  • Anthon van Rappard, pintor holandês amigo dele: cerca de 58 cartas entre 1881 e 1885, com longas discussões sobre desenho e sobre Os Comedores de Batata.
  • Willemien (Wil) van Gogh, a irmã mais nova: 21 cartas conhecidas (e mais três para ela e a mãe), todas entre outubro de 1887 e junho de 1890, nas quais ele explica a sua pintura.
  • Émile Bernard, o jovem pintor de Paris: 22 cartas de Vincent, cheias de esboços e de ideias sobre a cor. Uma delas foi escrita em parceria com Gauguin.
  • Paul Gauguin: conservam-se 4 cartas de Vincent para Gauguin e 16 de Gauguin para Vincent.
  • Os pais, Theodorus e Anna, e a mãe já viúva; e correspondentes ocasionais como o crítico Albert Aurier, Eugène Boch, John Peter Russell, Paul Signac, Joseph Roulin ou o casal Ginoux, de Arles.

Theo se casou em abril de 1889 com Johanna van Gogh-Bonger, que, após a morte dos dois irmãos, conservou as cartas e foi a primeira a publicá-las: em 1914 saíram, em três volumes, as cartas para Theo, Brieven aan zijn broeder. Em 1952–1954, o filho dela, Vincent Willem van Gogh, reuniu em quatro volumes toda a correspondência conhecida e, em 1990, o Museu Van Gogh publicou outra edição com as novas descobertas.

As cartas por fase

As cartas acompanham passo a passo a vida de Vincent. A edição as numera em ordem cronológica, de 001 a 902 (com algumas adicionais). Estas são as faixas de numeração que correspondem a cada fase, segundo os lugares e as datas da edição (incluem também as cartas recebidas):

FaseAnosNumeração na edição
Goupil, Inglaterra, Amsterdã, o Borinage e Bruxelas1872–1881001–165
Etten e Haia (primeiros anos)1881–1883166–384
Drenthe1883385–408
Nuenen1883–1885409–543
Antuérpia1885–1886544–566
Paris1886–1888567–576
Arles1888–1889577–771
Saint-Rémy1889–1890772–872
Auvers-sur-Oise1890873–902

A lacuna de Paris é significativa: entre 1886 e 1888, os irmãos dividiam um apartamento em Montmartre e quase não se escreviam; por isso sabemos muito menos sobre esses dois anos. As cartas de Arles, por outro lado, são as mais ricas em descrições de quadros: é a época dos girassóis, do quarto, do café noturno e da Casa Amarela.

Como ler as cartas de Van Gogh on-line

A edição de referência é Vincent van Gogh – The Letters, preparada durante quinze anos pelo Museu Van Gogh e pelo Huygens ING e editada por Leo Jansen, Hans Luijten e Nienke Bakker. Foi publicada em 2009, em livro e na internet, e o site, vangoghletters.org, continua sendo atualizado. Para cada carta, ele oferece:

  • o texto original em holandês ou francês, transcrito novamente a partir dos manuscritos;
  • uma tradução para o inglês;
  • o fac-símile do manuscrito e os esboços que Vincent desenhava no papel;
  • as notas dos editores, que identificam os quadros mencionados (com o número F e JH), as pessoas e os livros.

É possível pesquisar por período, por correspondente, por lugar ou só as cartas com esboços, e há uma busca por palavras. A tradução oferecida pela edição é a inglesa; as citações desta página e das nossas fichas foram traduzidas para o português a partir dessa versão. Na nossa página de frases de Van Gogh, você encontra ainda 26 citações famosas conferidas nas cartas e, na página Esboços nas cartas, os desenhos que acompanhavam o texto.

Cartas em destaque

Uma seleção de 25 cartas, em ordem cronológica, com o número na edição de 2009 (que leva ao texto completo no vangoghletters.org) e a ficha relacionada deste site.

N.ºData e lugarDestinatárioDo que trataNeste site
00129 set. 1872, HaiaTheoA primeira carta conservada para Theo, depois da visita dele a Haia.Biografia
15522–24 jun. 1880, CuesmesTheoRompe um longo silêncio com Theo; o «pássaro na gaiola» que sente que serve para alguma coisa. Sua primeira carta em francês.Rota do Borinage
1911–3 dez. 1881, HaiaTheoChega a Haia para trabalhar com Anton Mauve, que o põe para pintar uma natureza-morta com uns tamancos velhos.Mauve e Van Gogh
224c. 7 maio 1882, HaiaTheoRompimento com Mauve e confissão da sua vida com Sien Hoornik.Dor (Sorrow)
40028 out. 1883, Nieuw-Amsterdam (Drenthe)TheoA luta entre «sou pintor» e «não sou pintor».Frases de Van Gogh
49730 abr. 1885, NuenenTheoOs Comedores de Batata, quase terminado depois de «um inverno inteiro» de estudos de cabeças e mãos.Os Comedores de Batata
57721 fev. 1888, ArlesTheoChegada a Arles, com pelo menos 60 cm de neve.Rota de Arles
591c. 1 abr. 1888, ArlesTheoOs pessegueiros em flor dedicados a Mauve, que acabara de morrer.Souvenir de Mauve
6021 maio 1888, ArlesTheoAluga a ala direita da Casa Amarela por 15 francos por mês.A Casa Amarela
65331 jul. 1888, ArlesWillemienO retrato do carteiro Roulin, com «uma cabeça parecida com a de Sócrates».Retrato de Joseph Roulin
66621 ou 22 ago. 1888, ArlesTheoOs girassóis, pintados «com o entusiasmo de um marselhês comendo bouillabaisse».Os Girassóis
6768 set. 1888, ArlesTheoO café noturno: «as terríveis paixões humanas com o vermelho e o verde».O Café à Noite na Place Lamartine
691c. 29 set. 1888, ArlesTheoEsboços da Noite Estrelada Sobre o Ródano e da Casa Amarela «sob um sol de enxofre».Noite Estrelada Sobre o Ródano
70516 out. 1888, ArlesTheoO quarto: um quadro que devia sugerir «o descanso ou o sono».Quarto em Arles
7161 ou 2 nov. 1888, ArlesÉmile BernardCarta escrita a quatro mãos com Gauguin.Carta de Van Gogh e Gauguin
72617 ou 18 dez. 1888, ArlesTheoVisita com Gauguin ao Museu Fabre de Montpellier; as discussões «excessivamente elétricas» dos dois.Van Gogh e Gauguin
7282 jan. 1889, ArlesTheoEscrita no hospital depois da crise de dezembro, para tranquilizar Theo.Arles (1888–1889)
782c. 18 jun. 1889, Saint-RémyTheoAnuncia «um novo estudo de um céu estrelado»: A Noite Estrelada.A Noite Estrelada
8005–6 set. 1889, Saint-RémyTheoO ceifeiro, «a imagem da morte», mas sem nada de triste.Campo de Trigo com Ceifeiro e Sol
822c. 26 nov. 1889, Saint-RémyÉmile BernardO jardim do asilo e a angústia de «ver vermelho».Jardim do Asilo
8539 ou 10 fev. 1890, Saint-RémyAlbert AurierResposta ao primeiro grande artigo sobre a sua obra.Carta a Albert Aurier
85619 fev. 1890, Saint-RémyWillemienOs galhos em flor contra o céu azul que ele pinta para o sobrinho recém-nascido.Ramos de Amendoeira em Flor
8773 jun. 1890, AuversTheoEsboço do retrato do Doutor Gachet.Retrato de Dr. Gachet
898c. 10 jul. 1890, AuversTheo e JoImensos trigais sob céus turbulentos para expressar «a tristeza, a solidão extrema».Trigal sob Nuvens de Tempestade
90223 jul. 1890, AuversTheoA última carta enviada, com o esboço do jardim de Daubigny.O Jardim de Daubigny

O que as cartas contam: algumas chaves

Lidas em ordem, as cartas mostram como um funcionário de galeria, depois pregador fracassado, decide aos 27 anos se tornar pintor e aprende quase sozinho, com a ajuda de livros, de amigos como Van Rappard e, durante alguns meses, de Mauve. Mostram também o seu método: Van Gogh descreve cada quadro importante com os nomes exatos das cores, como no Quarto, em que enumera as paredes violeta-pálido, o chão de lajotas vermelhas e a cama e as cadeiras de um «amarelo manteiga fresca» (carta 705). E revelam a sua maneira de pensar a pintura, como quando escreve que no café noturno quis expressar que é um lugar onde a pessoa pode se arruinar, enlouquecer ou cometer crimes (carta 677), ou quando vê em um ceifeiro a imagem da morte «em plena luz do dia, com um sol que inunda tudo com uma luz de ouro fino» (carta 800).

As cartas também derrubam mitos: muitas frases que circulam como dele não aparecem nelas ou estão cortadas. Você as encontra conferidas uma a uma em frases de Van Gogh.

Neste site

Fontes: Vincent van Gogh, The Letters, edição de Leo Jansen, Hans Luijten e Nienke Bakker, Museu Van Gogh e Huygens ING (vangoghletters.org): páginas «Van Gogh as a letter-writer», «About this edition» e classificações por correspondente e por período; cartas 001, 155, 191, 224, 400, 497, 577, 591, 602, 653, 666, 676, 677, 691, 705, 716, 726, 728, 782, 800, 822, 853, 856, 877, 898 e 902, com as respectivas notas. Tradução para o português deste site, a partir da tradução inglesa da edição.