Quase tudo o que sabemos sobre o que pensava Vincent van Gogh vem de suas cartas: são conservadas mais de 800 escritas por ele, a maioria para o irmão Theo. É delas que saem as frases que circulam na internet, embora muitas cheguem cortadas, retocadas ou simplesmente inventadas. Aqui você encontra 26 citações conferidas na edição crítica das cartas do Museu Van Gogh e do Huygens ING, agrupadas por tema. Cada uma traz o número da carta, o destinatário, o lugar, a data e um link para o texto completo, e está traduzida com fidelidade ao que Van Gogh escreveu, não à versão popular. No final, as frases atribuídas a ele que não estão assim nas cartas.
Frases de Van Gogh sobre pintar e o ofício de artista
«Se algo dentro de você mesmo diz “você não é pintor”, é então que você deve pintar, meu caro, e essa voz também vai se calar, mas justamente por isso.»
Carta 400, a Theo van Gogh. Nieuw-Amsterdam (Drenthe), domingo, 28 de outubro de 1883.
Vincent escreve a Theo da turfeira de Drenthe, numa carta em que discute como Theo deveria encarar o ofício se chegasse a se tornar pintor. A versão popular («Se você ouvir uma voz dentro de você dizendo “você não sabe pintar”…») é uma paráfrase deste trecho.
«Continuo fazendo o que ainda não sei fazer, para aprender a fazê-lo.»
Carta 528, a Anthon van Rappard. Nuenen, por volta de terça-feira, 18 de agosto de 1885.
Ele escreve isso ao pintor Anthon van Rappard poucos meses depois de Os Comedores de Batata, em plena discussão com Rappard por causa das críticas duras dele à litografia desse quadro.
«O grande não acontece só por impulso: é uma sucessão de pequenas coisas que se juntam.»
Carta 274, a Theo van Gogh. Haia, domingo, 22 de outubro de 1882.
Logo depois ele se pergunta o que é desenhar e responde que é abrir caminho através de «um muro de ferro invisível» entre o que se sente e o que se consegue fazer.
«É olhar as coisas por muito tempo que faz você amadurecer e compreender mais a fundo.»
Carta 686, a Theo van Gogh. Arles, domingo, 23, ou segunda-feira, 24 de setembro de 1888.
Ele fala da pintura do sul: certa habilidade não basta para fazer um quadro «verdadeiramente do sul»; é preciso tempo no lugar.
«Agora estou tentando exagerar a essência das coisas e deixar de propósito no vago o que é banal.»
Carta 613, a Theo van Gogh. Arles, sábado, 26 de maio de 1888.
«Eu busco, eu persigo, meu coração está nisso.»
Carta 224, a Theo van Gogh. Haia, por volta de domingo, 7 de maio de 1882.
É o que, segundo Vincent, significam as palavras «sou artista», que seu mestre Anton Mauve lhe havia censurado: elas implicam «buscar sempre sem nunca encontrar por completo», o contrário de dizer «já sei, já encontrei».
«Às vezes tenho uma lucidez terrível, quando a natureza está tão bonita como nestes dias, e então já não tenho consciência de mim mesmo e o quadro me vem como num sonho.»
Carta 687, a Theo van Gogh. Arles, terça-feira, 25 de setembro de 1888.
Em seguida ele acrescenta que teme que essa euforia tenha «sua reação em melancolia» quando chegar a estação ruim.
«Pois bem, no meu próprio trabalho eu arrisco a vida, e a minha razão naufragou pela metade nele.»
Carta RM25, a Theo van Gogh. Auvers-sur-Oise, quarta-feira, 23 de julho de 1890 (rascunho inacabado que ele não chegou a enviar).
É uma das últimas coisas que escreveu, dias antes de morrer. A frase popular «Coloco meu coração e minha alma no meu trabalho, e perdi a cabeça no processo» parece uma versão livre deste trecho.

Frases de Van Gogh sobre o amor e as pessoas
«É bom amar tanto quanto se puder, porque nisso está a verdadeira força, e quem ama muito faz muito e é capaz de muito, e o que é feito com amor é bem-feito.»
Carta 143, a Theo van Gogh. Amsterdã, quarta-feira, 3 de abril de 1878.
A versão que circula começa com «É bom amar muitas coisas»; Vincent escreveu «amar tanto quanto se puder». Na época, ele estudava em Amsterdã para ser pastor.
«Sem querer, sempre me inclino a acreditar que a melhor maneira de conhecer Deus é amar muito. Ame aquele amigo, aquela pessoa, aquela coisa, o que você quiser, e estará no bom caminho para conhecer mais a fundo depois.»
Carta 155, a Theo van Gogh. Cuesmes (Borinage), entre terça-feira, 22, e quinta-feira, 24 de junho de 1880.
Ele a escreveu no Borinage, a região mineira belga, pouco antes de decidir se dedicar à arte. A frase popular («a melhor forma de conhecer Deus é amar muitas coisas») altera o original.
«Alguém tem um grande fogo na alma e ninguém nunca vem se aquecer nele, e quem passa só vê um pouco de fumaça no alto da chaminé e segue o seu caminho.»
Carta 155, a Theo van Gogh. Cuesmes, entre terça-feira, 22, e quinta-feira, 24 de junho de 1880.
E continua: «E agora, o que fazer? Manter esse fogo vivo por dentro, ter sal em si mesmo, esperar pacientemente, mas com quanta impaciência, a hora…?».
«Quanto mais penso nisso, mais sinto que não há nada mais verdadeiramente artístico do que amar as pessoas.»
Carta 682, a Theo van Gogh. Arles, terça-feira, 18 de setembro de 1888.
«O que sou eu aos olhos da maioria? Uma nulidade, ou um excêntrico, ou uma pessoa desagradável, alguém que não tem nem terá nenhuma posição na sociedade; em suma, um pouco menos que o último dos últimos. Pois bem, mesmo supondo que tudo seja exatamente assim, eu gostaria de mostrar com a minha obra o que há no coração de um excêntrico assim, de um zé-ninguém assim.»
Carta 249, a Theo van Gogh. Haia, por volta de sexta-feira, 21 de julho de 1882.
Reduzida a «Sou um zé-ninguém», a frase perde o sentido: não é uma queixa, e sim uma declaração de intenções sobre a sua obra.
Frases de Van Gogh sobre a natureza, a noite e as estrelas
«Se a gente ama de verdade a natureza, encontra beleza em toda parte.»
Carta 022, a Theo van Gogh. Londres, quinta-feira, 30 de abril de 1874.
Ele tinha 21 anos e trabalhava na filial londrina da galeria Goupil; descreve os lilases e os espinheiros em flor dos jardins da cidade e seus magníficos castanheiros.
«Quanto a mim, declaro que não sei nada sobre isso. Mas a visão das estrelas sempre me faz sonhar, da mesma maneira simples que me fazem sonhar os pontos pretos que representam cidades e vilarejos no mapa.»
Carta 638, a Theo van Gogh. Arles, segunda-feira, 9, ou terça-feira, 10 de julho de 1888.
«Isso» é a morte: Vincent se pergunta se os pintores continuam falando às gerações futuras por meio de suas obras, e se há algo mais. E continua: assim como pegamos o trem para ir a uma cidade, «pegamos a morte para ir a uma estrela». A versão popular («Não sei nada com certeza, mas a visão das estrelas me faz sonhar») elimina esse contexto.
«Muitas vezes me parece que a noite é muito mais viva e mais ricamente colorida do que o dia.»
Carta 676, a Theo van Gogh. Arles, sábado, 8 de setembro de 1888.
Ele tinha acabado de passar três noites em claro pintando O Café à Noite na Place Lamartine. No dia seguinte, repetiu a ideia à irmã Willemien: «Muitas vezes me parece que a noite é ainda mais ricamente colorida do que o dia, colorida com os violetas, os azuis e os verdes mais intensos» (carta 678, Arles, 9 e por volta de 14 de setembro de 1888). Nessa mesma carta, ele diz que quer pintar um céu estrelado; pouco depois pintou a Noite Estrelada Sobre o Ródano.
«E ainda assim sentir claramente as estrelas e o infinito, lá em cima. Então a vida é, apesar de tudo, quase mágica.»
Carta 663, a Theo van Gogh. Arles, sábado, 18 de agosto de 1888.
Ele fala de uma vida simples: conseguir viver com um pedaço de pão trabalhando o dia inteiro e, ainda assim, ter forças para fumar, beber um copo e sentir as estrelas. Na mesma carta, explica que, num retrato, em vez da parede do quarto ele pinta «o infinito», um fundo do azul mais intenso.

Frases de Van Gogh sobre o ânimo, o fracasso e seguir em frente
«Se cairmos, nós nos levantamos de novo!»
Carta 178, a Anthon van Rappard. Etten, quarta-feira, 2 de novembro de 1881.
Antes, ele reconhece que, por mais consciente que esteja da própria falibilidade, vai cometer «muitíssimos erros» de qualquer jeito. A versão «Só quando caio é que me levanto de novo» não é o que ele escreveu.
«O que seria a vida se não ousássemos tomar as coisas nas mãos?»
Carta 194, a Theo van Gogh. Haia, quinta-feira, 29 de dezembro de 1881.
Ele tinha acabado de alugar seu primeiro ateliê em Haia, por 7 florins por mês, depois de romper com o pai. Logo antes, escreve: «Há segurança em meio ao perigo».
«Os pescadores sabem que o mar é perigoso e a tempestade, temível, mas nunca viram nesses perigos uma razão para continuar passeando na praia. Essa sabedoria eles deixam para quem gostar dela.»
Carta 228, a Theo van Gogh. Haia, por volta de terça-feira, 16 de maio de 1882.
Ele a escreve para defender sua decisão de se casar com Sien Hoornik, apesar da pobreza e da oposição da família e de Tersteeg, seu antigo chefe na Goupil.
«O começo talvez seja mais difícil do que em outros empregos, mas não desanime e você vai se sair bem.»
Carta 003, a Theo van Gogh. Haia, meados de janeiro de 1873.
É uma das primeiras cartas a Theo, que tinha acabado de entrar na galeria Goupil de Bruxelas. Refere-se a esse trabalho, não à pintura.
«Ainda estou longe de ser o que eu gostaria de ser, mas, com a ajuda de Deus, vou conseguir.»
Carta 089, a Theo van Gogh. Isleworth (Inglaterra), sábado, 26 de agosto de 1876.
Ele trabalhava como assistente numa escola de meninos de Isleworth, perto de Londres, e queria ser pregador; em seguida, diz que quer estar unido a Cristo «com laços inquebráveis».
«De resto, estou tentando cada vez mais ser eu mesmo, e me é relativamente indiferente se as pessoas acham isso muito feio ou melhor.»
Carta 494, a Theo van Gogh. Nuenen, por volta de sábado, 18 de abril de 1885.
Ele se refere à sua obra: fica contente que o marchand Portier tenha visto «personalidade» nela. A versão «sem me importar se as pessoas aprovam ou desaprovam» não é literal.
«E, seja como for, eu, de minha parte, concordo: antes morrer de paixão do que morrer de tédio.»
Carta 506, a Theo van Gogh. Nuenen, por volta de terça-feira, 2 de junho de 1885.
Atenção: a frase não é de Van Gogh, e sim de Émile Zola: quem a diz é o personagem Octave Mouret no romance Au bonheur des dames; Vincent a cita e a toma para si, como já tinha feito na carta 464 (Nuenen, 2 de outubro de 1884), segundo as notas da edição.

Frases de Van Gogh sobre os livros e o futuro
«Ler livros é como olhar quadros: sem duvidar, sem hesitar, com segurança, é preciso achar belo o que é belo.»
Carta 170, a Theo van Gogh. Etten, sexta-feira, 5 de agosto de 1881.
Antes, ele conta que leu em três dias um livro bastante grosso e que está adquirindo a capacidade de ler depressa e guardar uma impressão forte do que leu.
«Vamos acabar nos fartando de cinismo, de ceticismo, de zombaria, e vamos querer viver de um modo mais musical.»
Carta 686, a Theo van Gogh. Arles, domingo, 23, ou segunda-feira, 24 de setembro de 1888.
Ele continua se perguntando como isso vai acontecer e o que vamos encontrar, e conclui que é melhor pressenti-lo do que não ver no futuro nada além de desastres.
Frases atribuídas a Van Gogh que não estão assim nas cartas
Estas frases circulam com o nome dele, mas não aparecem na edição das cartas ou aparecem com outro sentido. Nós as retiramos desta página ou as substituímos pelo texto autêntico, que você encontra acima:
- «Coloco meu coração e minha alma no meu trabalho, e perdi a cabeça no processo»: parece uma versão livre do rascunho RM25 («no meu próprio trabalho eu arrisco a vida, e a minha razão naufragou pela metade nele»).
- «Não sei nada com certeza, mas a visão das estrelas me faz sonhar»: recorte da carta 638, em que o que ele não sabe é o que existe depois da morte.
- «É bom amar muitas coisas» e «a melhor forma de conhecer Deus é amar muitas coisas»: nas cartas 143 e 155 ele diz «amar tanto quanto se puder» e «amar muito».
- «Só quando caio é que me levanto de novo»: a carta 178 diz «se cairmos, nós nos levantamos de novo».
- «Sou um zé-ninguém»: recorte da carta 249, que diz exatamente o contrário de uma queixa.
- «Os pescadores… nunca encontraram nesses perigos razão suficiente para permanecer em terra»: na carta 228 não é «permanecer em terra», e sim «continuar passeando na praia».
- «Sonho minha pintura e depois pinto meu sonho» e «A normalidade é uma estrada pavimentada…»: muito compartilhadas, mas não aparecem na edição das cartas (não dão resultados no buscador do vangoghletters.org).
Se você quer conhecer o Van Gogh das cartas, comece pela nossa seleção de cartas de Van Gogh, como a carta que ele escreveu com Gauguin a Émile Bernard, ou pela sua biografia. E, se você gosta de informações conferidas, veja também as curiosidades sobre Van Gogh.

Fonte: Vincent van Gogh, The Letters, edição crítica on-line do Museu Van Gogh e do Huygens ING (vangoghletters.org): texto, datas e notas das cartas 003, 022, 089, 143, 155, 170, 178, 194, 224, 228, 249, 274, 400, 464, 494, 506, 528, 613, 638, 663, 676, 678, 682, 686, 687 e RM25. Tradução para o português deste site, feita a partir da tradução inglesa oficial.
