O Café à Noite na Place Lamartine (Le Café de nuit) é o interior do café da estação de Arles, pintado por Vincent van Gogh em setembro de 1888. Ele o fez em três noites seguidas, dormindo durante o dia. É o quadro em que quis exprimir, como escreveu a Theo, «as terríveis paixões humanas» por meio do vermelho e do verde: um lugar onde a pessoa «pode se arruinar, enlouquecer, cometer crimes». Mede 72,4 × 92,1 cm e pertence à Galeria de Arte da Universidade Yale, em New Haven (Estados Unidos). Não confunda com Terraço do Café à Noite, o exterior de outro café, pintado naquela mesma semana.
Significado de O Café à Noite: o que representa
Um salão de café visto da porta, à noite. As paredes são vermelhas; o teto, verde; o chão, amarelo, com a perspectiva forçada de uma mesa de bilhar no centro que parece deslizar em direção ao espectador. Quatro lampiões a gás com halos amarelos e verdes iluminam a cena. Nas laterais, mesas com fregueses solitários que cochilam ou bebem; ao fundo, um casal e uma porta com cortina; ao lado do bilhar, de pé, o dono, de terno claro. Um relógio marca pouco mais de meia-noite.
O café é o Café de la Gare, na Place Lamartine, do casal Ginoux, a poucos passos da casa amarela. Van Gogh alugou um quarto ali nos meses anteriores à mudança para a casa amarela. Era um «café noturno», aberto a noite toda, onde iam parar os que não tinham onde dormir ou não podiam pagar uma pensão. Esse é o assunto do quadro: não uma cena de bar, mas o lugar onde acabam os que não têm para onde ir.
A carta a Theo: «as terríveis paixões humanas»
Van Gogh explicou isso a Theo em 8 de setembro de 1888 (carta 676 em vangoghletters.org): tinha tentado exprimir com o vermelho e o verde «as terríveis paixões humanas». O salão é «vermelho-sangue e amarelo fosco, uma mesa de bilhar verde no centro, quatro lampiões amarelo-limão com um brilho laranja e verde». Por toda parte há «uma batalha e uma antítese dos verdes e vermelhos mais diferentes». No dia seguinte, na carta 677 (9 de setembro), ele arremata a ideia: o café é um lugar onde a pessoa «pode se arruinar, enlouquecer, cometer crimes», e ele quis exprimir «o poder dos cantos escuros de uma taberna» sob «a aparência de alegria japonesa e a bonomia de Tartarin».
Na carta de 8 de setembro conta o método: pintá-lo à noite, no local, três noites seguidas, dormindo de dia. Achava que era um dos quadros «mais feios» que tinha feito, comparável a Os Comedores de Batata, e ao mesmo tempo um dos mais seus. Segundo a Wikipedia, o quadro acabou servindo para acertar as contas com Ginoux, o dono, que seria o homem de pé ao lado do bilhar.
Análise: vermelho contra verde
Complementares que não harmonizam
Em Terraço do Café à Noite e em Os Girassóis, as complementares criam harmonia; aqui Van Gogh as usa para o contrário. O vermelho das paredes e o verde do teto e do bilhar são o par mais chocante do círculo cromático. Não há azul que os acalme, e o amarelo do chão e dos lampiões os empurra. É, nas palavras dele, uma cor que não busca ser exata, mas «sugerir uma emoção». Gauguin, que chegou a Arles em outubro, pintou sua própria versão do mesmo café, com Madame Ginoux em primeiro plano.
A perspectiva
O chão sobe em direção ao fundo com uma perspectiva exagerada, e o bilhar, visto de cima, parece flutuar. As linhas de fuga convergem para a porta do fundo, iluminada, como uma saída. O efeito de vertigem é o mesmo de Quarto em Arles, pintado um mês depois, mas aqui provoca inquietação em vez de repouso.
Os lampiões
Os halos dos quatro lampiões a gás são pintados com círculos concêntricos de pinceladas amarelas, laranja e verdes: o mesmo recurso das estrelas do Terraço e do Ródano, pintados naqueles mesmos dias. A luz a gás, em Arles, era a novidade do momento, e Van Gogh a pinta nos três quadros.
Curiosidades
- Existe uma aquarela. Van Gogh fez uma versão em aquarela da composição, com cores um pouco diferentes, hoje numa coleção particular.
- De Moscou a Yale. O quadro foi comprado pelo colecionador russo Ivan Morozov em 1908; foi nacionalizado em 1918 e, em 1933, vendido pelo governo soviético, por meio da galeria Knoedler, ao colecionador Stephen Clark, que o deixou em legado à Universidade Yale em 1961. Em 2009, Yale recorreu à Justiça contra Pierre Konowaloff, bisneto de Morozov, que reivindicava a obra; a reivindicação foi definitivamente rejeitada em 2016, quando a Suprema Corte dos Estados Unidos se recusou a reexaminá-la.
- Três noites em um mês. Em setembro de 1888, Van Gogh pintou este café, o terraço do Forum e a noite sobre o Ródano: três formas diferentes da noite.
Onde ver O Café à Noite
Na Galeria de Arte da Universidade Yale, em New Haven, Connecticut, a uma hora e meia de Nova York (horários e condições em artgallery.yale.edu). É um dos poucos grandes quadros de Van Gogh num museu universitário. A página onde ver os quadros de Van Gogh traz os demais museus com obras dele.
Todas as obras de Van Gogh da Galeria de Arte da Universidade Yale que têm ficha neste site, com informações para a visita: Van Gogh na Galeria de Arte da Universidade Yale.
Ficha técnica
| Título | O Café à Noite na Place Lamartine (Le Café de nuit / The Night Café) |
|---|---|
| Autor | Vincent van Gogh |
| Data e local | Arles, setembro de 1888 |
| Técnica | Óleo sobre tela |
| Dimensões | 72,4 × 92,1 cm |
| Catálogos | F 463 · JH 1575 |
| Localização | Galeria de Arte da Universidade Yale, New Haven (legado de Stephen Carlton Clark, 1961) |
| Período | Arles (1888–1889) |
Obras relacionadas
- A Casa Amarela (aquarela): aquarela relacionada com esta obra.
- Terraço do Café à Noite (1888): o outro café, visto de fora.
- Noite Estrelada Sobre o Ródano (1888): a terceira noite de setembro.
- Quarto em Arles (1888): a mesma perspectiva, em calma.
- A Casa Amarela (1888): a casa ao lado.
- Os Comedores de Batata (1885): o outro quadro «feio» que ele defendia.
Fontes: cartas 676 e 677 (a Theo, 8 e 9 de setembro de 1888), edição do Museu Van Gogh e do Huygens Institute, vangoghletters.org; ficha da obra na Galeria de Arte da Universidade Yale; Wikipedia, «The Night Café».
