Van Gogh e Gauguin: a história completa da amizade, as nove semanas em Arles e o rompimento

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A relação entre Vincent van Gogh e Paul Gauguin durou apenas três anos, de 1887 a 1890, e só nove semanas de convivência, na Casa Amarela de Arles, de 23 de outubro a 25 de dezembro de 1888. Terminou na noite em que Van Gogh cortou a orelha. Mas nesse tempo os dois trocaram autorretratos, pintaram um ao outro e pintaram os mesmos motivos lado a lado. E discutiram sobre pintura até romper. Esta página conta a história completa com as cartas de Van Gogh, que são a fonte principal, e explica o que ficou dessa amizade na obra dos dois.

1887: o encontro em Paris

Eles se conheceram em Paris em 1887. Van Gogh, de 34 anos, morava com Theo em Montmartre; Gauguin, de 39, ex-corretor da bolsa, acabava de voltar da Martinica com um punhado de quadros tropicais. No fim daquele ano Van Gogh organizou uma exposição de amigos (Bernard, Anquetin, provavelmente Toulouse-Lautrec) no Grand-Bouillon Restaurant du Chalet, na avenida de Clichy, e ali, segundo a Wikipédia, trocou obras com Gauguin: como Vincent lembra na carta 736, Gauguin levou de Paris duas de suas telas de girassóis e lhe deu um pequeno quadro da Martinica. Theo, que era marchand na casa Goupil, comprou três quadros de Gauguin e começou a vendê-los. Essa foi a origem do vínculo: Vincent admirava o pintor; Gauguin precisava do marchand.

1888: a Casa Amarela e os autorretratos

Em fevereiro de 1888 Van Gogh foi para Arles e em maio alugou a Casa Amarela com a ideia de fundar ali um ateliê de artistas. Queria que Gauguin fosse o líder do grupo e passou o verão implorando que ele viesse; Theo, que apoiou o plano, arcaria com as despesas. Para recebê-lo, pintou em agosto os girassóis, «uma decoração para o ateliê», mobiliou a casa e se instalou nela em setembro.

Antes de se encontrarem, voltaram a trocar quadros, desta vez autorretratos. No início de outubro de 1888 chegou a Arles o de Gauguin, pintado em Pont-Aven, com o retrato de Bernard ao fundo, que Gauguin intitulou Les Misérables. Van Gogh lhe mandou o seu, em que se pintou como «um bonzo, um simples adorador do Buda eterno», e escreveu a Theo (carta 697): «quando ponho a concepção de Gauguin e a minha lado a lado, meu retrato é igualmente sério, mas menos desesperado. O que o retrato de Gauguin me diz, antes de tudo, é que ele não pode continuar assim, ele precisa se consolar».

As nove semanas em Arles (23 de outubro – 25 de dezembro de 1888)

Gauguin chegou em 23 de outubro de 1888, depois de meses de insistência de Van Gogh. As primeiras semanas foram produtivas. A primeira saída dos dois para pintar foi à necrópole romana de Les Alyscamps, onde pintaram telas gêmeas. Em novembro Van Gogh pintou A Vinha Encarnada, O Semeador com a árvore, a arlesiana e, seguindo o conselho de Gauguin, quadros de memória como Lembrança do jardim de Etten. E pintou as duas cadeiras: a sua, de dia, e a de Gauguin, à noite, com uma vela e dois romances: dois retratos sem figura que mostram como eles eram diferentes.

O quadro-chave que Gauguin pintou em Arles é o retrato de Van Gogh pintando girassóis, de dezembro, hoje no Museu Van Gogh. Segundo o museu, ele não pôde retratá-lo de fato pintando girassóis, porque em dezembro já não havia; mas Van Gogh estava então copiando uma de suas próprias naturezas-mortas de girassóis, e o quadro alude às discussões dos dois: Gauguin preferia pintar de imaginação, Van Gogh a partir da natureza. Nove meses depois Vincent escreveu a Theo sobre esse retrato: «era mesmo eu, extremamente cansado e carregado de eletricidade como eu estava então».

Em dezembro foram juntos a Montpellier ver os Courbet e Delacroix do Museu Fabre, e a relação começou a se deteriorar: Van Gogh admirava Gauguin e queria ser tratado como seu igual, mas Gauguin era arrogante e dominador, e os dois discutiam com frequência; Van Gogh temia cada vez mais que Gauguin o abandonasse, e a situação, que ele mesmo descreveu a Theo dizendo que «a discussão é excessivamente elétrica» (carta 726), caminhou rapidamente para a crise.

A noite de 23 de dezembro

A sequência exata não é conhecida. Gauguin contou quinze anos depois que a noite veio após vários episódios de ameaça física e que Van Gogh o tinha seguido pela rua «com uma navalha aberta na mão»; o relato não é corroborado, e Gauguin quase certamente não dormiu naquela noite na Casa Amarela, mas num hotel. O que se sabe é que, depois de uma discussão, na noite de 23 de dezembro de 1888, Van Gogh voltou para o quarto, cortou a orelha esquerda, total ou parcialmente, com uma navalha, embrulhou-a em papel e a levou a uma jovem de um bordel que os dois frequentavam. Um policial o encontrou inconsciente na manhã seguinte e o levou ao hospital, onde foi atendido pelo jovem doutor Félix Rey.

Gauguin avisou Theo imediatamente; Theo, que acabava de ficar noivo de Jo Bonger, pegou o trem noturno e passou o dia de Natal com o irmão. No hospital Vincent perguntou várias vezes por Gauguin, que pediu a um policial que lhe dissesse que ele tinha ido para Paris, «porque me ver poderia ser fatal para ele». Gauguin foi embora de Arles e os dois nunca mais se viram.

Depois: as cartas e os girassóis

Continuaram se correspondendo. Em 17 de janeiro de 1889, já em casa, Van Gogh contava a Theo, irritado, que Gauguin lhe cobrava um dos girassóis que tinham pendurado em seu quarto, em troca de alguns estudos que deixara em Arles: «fico categoricamente com esses meus girassóis. Ele já tem dois, que isso lhe baste» (carta 736). Quatro dias depois escreveu a Gauguin em outro tom, «meu caro amigo Gauguin», de «minha pequena casa amarela», e se ofereceu para pintar duas cópias exatamente iguais (carta 739): assim nasceram as versões de janeiro de 1889 de os girassóis. Na mesma carta a Theo ele falava da poltrona de Gauguin, com a vela e os romances, e de «minha própria cadeira vazia».

Em 1890 Gauguin ainda lhe propôs montar juntos um ateliê em Antuérpia; não deu em nada. Van Gogh morreu em julho de 1890; Gauguin foi para o Taiti em 1891 e pintou lá De onde viemos?, a obra que resume o método de memória e imaginação que ele havia defendido em Arles.

Significado: o que ficou da amizade

  • Os girassóis: pintados para recebê-lo, depois cobrados por ele, e o motivo com que retratou Van Gogh. A edição das cartas esclarece que nenhuma versão chegou de fato às mãos de Gauguin.
  • As duas cadeiras: o retrato duplo de duas personalidades, hoje em Londres e Amsterdã.
  • A pintura de memória: Van Gogh a experimentou em Arles por conselho de Gauguin (A Vinha Encarnada, Lembrança do jardim de Etten) e depois voltou à natureza.
  • Os autorretratos cruzados: o «bonzo» de Van Gogh e Les Misérables de Gauguin.
  • A lenda: a orelha, a navalha, a Casa Amarela. Grande parte do que se conta vem do relato tardio de Gauguin, não corroborado.

Onde ver as obras desta história

No Museu Van Gogh de Amsterdã estão Van Gogh pintando girassóis, de Gauguin, A Cadeira de Gauguin e os girassóis de janeiro de 1889; na National Gallery de Londres, A Cadeira de Van Gogh com Cachimbo e os girassóis de agosto. A Casa Amarela já não existe, mas a Place Lamartine e o antigo hospital de Arles podem ser visitados. Você encontra a lista completa em onde ver os quadros de Van Gogh.

Ficha técnica

ProtagonistasVincent van Gogh (1853–1890) e Paul Gauguin (1848–1903)
EncontroParis, 1887 (exposição do Restaurant du Chalet, troca de quadros)
ConvivênciaCasa Amarela, Arles: 23 de outubro – 25 de dezembro de 1888 (nove semanas)
RompimentoNoite de 23 de dezembro de 1888 (a orelha); Gauguin volta a Paris
DepoisCorrespondência até 1890; proposta de ateliê em Antuérpia

Para continuar

Fontes: Wikipédia, «Vincent van Gogh» (seções sobre Paris, a visita de Gauguin e o hospital de Arles) e «Paul Gauguin»; cartas 697, 736 e 739 e suas notas, edição do Museu Van Gogh (vangoghletters.org); ficha de «Vincent van Gogh pintando girassóis» no Museu Van Gogh (s0225V1962).

Sobre esta ficha. Redigida por Jorge Torres, editor do Museu Van Gogh, e revisada em setembro de 2026. Fontes: cartas de Vincent van Gogh na edição do Museu Van Gogh e do Huygens Institute (vangoghletters.org), catálogos raisonnés de De la Faille (F) e Hulsker (JH) e a documentação do museu que conserva a obra. Como fazemos as fichas.