Ansiedade (Edvard Munch, 1894): significado e análise do quadro

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Ansiedade (Angst) é um óleo sobre tela de Edvard Munch pintado em 1894, de 94 × 74 cm, que pertence ao Museu Munch de Oslo. Mostra um grupo de pessoas de rostos pálidos e olhos arregalados que avançam em direção ao espectador por uma ponte, sob um céu vermelho-sangue. É a síntese de dois quadros anteriores de Munch, Entardecer na Rua Karl Johan (1892) e O Grito (1893). Faz parte do Friso da Vida, o grande ciclo de Munch sobre o amor, a angústia e a morte, e em 1896 o pintor o repetiu numa litografia e numa xilogravura.

Significado de Ansiedade: o que representa

A cena vem de O Grito: o parapeito que atravessa o quadro na diagonal, do alto à esquerda até embaixo à direita; o precipício que deixa ver a cidade e o fiorde com barcos ao fundo; e o céu vermelho com nuvens de tempestade. Mas no lugar da figura que grita há uma multidão. Pela ponte avança um grupo de pessoas de rostos esverdeados e pálidos, com os olhos arregalados, que encaram o espectador e parecem empurrar em sua direção. Destacam-se três figuras em primeiro plano: uma mulher com um chapéu ou touca que parece uma auréola, um homem de cartola e outro de chapéu e cavanhaque. Todos estão de preto, como num cortejo fúnebre.

O título já anuncia o tema. Segundo a historiadora Gerd Woll, as cores de alerta e os contrastes têm um efeito alarmante e reforçam a sensação de incerteza e medo que emana da composição; Uwe M. Schneede atribui isso também ao «céu turbulento e ameaçador» e à «profundidade da paisagem». Na primeira exposição do Friso da Vida, Munch intitulou o quadro Nuvens vermelhas.

De onde vêm as figuras

O historiador Arne Eggum descreve Ansiedade como a síntese de duas representações anteriores do medo. De Entardecer na Rua Karl Johan (1892, Kunstmuseum de Bergen) vêm as figuras: a multidão de rostos aterrorizados e fixos que desce pela avenida principal de Kristiania (a atual Oslo). Da paisagem de Desespero (1892) e de seu desenvolvimento, O Grito (1893), vem o cenário: a ponte sobre o fiorde de Oslo. Munch transportou as figuras de um quadro para a paisagem do outro, e o resultado, segundo Reinhold Heller, é uma combinação muito mais bem-sucedida que a de Desespero (1894), pintado no mesmo ano.

Há uma figura nova, a do homem de cavanhaque na borda esquerda. Eggum a identifica com o escritor polonês Stanisław Przybyszewski, que Munch tinha conhecido no círculo boêmio da taverna berlinense O Leitãozinho Preto e que retratou várias vezes, inclusive em outros motivos do Friso da Vida, como Ciúmes. Seria uma homenagem ao amigo cujo romance Requiem lhe dera as fórmulas para seus motivos de angústia, e um indício de que o quadro foi pintado em Berlim. Nas gravuras do ano seguinte esse personagem já não aparece.

Análise: a multidão que olha

A lembrança da Karl Johan

Eggum relaciona a multidão com uma experiência pessoal de Munch que já estava na origem de Entardecer na Rua Karl Johan. Certa noite, aos 22 anos, Munch caminhava inquieto pela Karl Johans gate, a rua principal de Kristiania, procurando sua amante Milly Thaulow (que ele chamou de «senhora Heiberg» em seus escritos), quando uma multidão veio em sua direção pela avenida. Ele teve uma crise de ansiedade e sentiu que ia cair. Contou isso em seus diários: não sentia as pernas, e todos os que passavam lhe pareciam estranhos e o encaravam, «todos aqueles rostos, pálidos à luz da tarde». Milly Thaulow era três anos mais velha que ele e casada com um primo de Munch; foi uma relação proibida, ao fim da qual Munch escreveu que tinha renunciado a toda esperança de poder amar. Eggum identifica a mulher da auréola com a «senhora Heiberg» e o homem de cartola com o marido dela.

Um cortejo de fantasmas

Gerd Woll, por sua vez, lê o quadro menos como autobiografia e mais como expressão concentrada de um estado de espírito, típica do simbolismo, que reflete também a sensação de decadência social do fim do século. Para Heller, a massa anônima de rostos verdes e roupas pretas lembra um cortejo fúnebre: são os habitantes da cidade moderna, acostumados à feiura e alheios à natureza majestosa que têm diante de si. Eggum fala de um «cortejo fúnebre de fantasmas» que o espectador olha diretamente nos olhos. O próprio Munch escreveu sobre as gravuras de Ansiedade: «Vejo todas as pessoas por trás de suas máscaras, rostos sorridentes e tranquilos, cadáveres pálidos que correm inquietos por um caminho tortuoso cujo fim é a morte».

Cor e perspectiva

Como em O Grito, a diagonal do parapeito puxa o olhar para o fundo e faz a multidão parecer vir de muito longe, enquanto o céu vermelho, pintado em faixas ondulantes, fecha a cena por cima. Os verdes dos rostos contra o vermelho do céu são o contraste mais violento do quadro. É o mesmo uso «sugestivo» da cor que Van Gogh tinha defendido alguns anos antes em O Café à Noite na Place Lamartine, onde o vermelho e o verde deviam exprimir «as terríveis paixões humanas»; Munch aplica esse contraste a uma cena urbana.

As gravuras de 1896

Em 1896 Munch fez duas gravuras do motivo, provavelmente com poucos meses de diferença: uma litografia (invertida em relação ao quadro) e uma xilogravura. Nas duas desaparece o parapeito que dominava a perspectiva e as figuras se espalham por todo o primeiro plano; no lugar do homem de cavanhaque há três mulheres de touca em torno do homem de cartola. A litografia foi impressa em parte em duas cores, com as roupas fundidas numa única massa preta, e Munch contribuiu com uma versão em preto e vermelho para o portfólio Les Peintres-Graveurs do marchand Ambroise Vollard. A xilogravura existe em preto ou vermelho e em duas cores. Há exemplares no Museu Munch de Oslo e no Museu Folkwang de Essen.

Contexto: o Friso da Vida

Munch (1863–1944) pintou Ansiedade nos anos de Berlim, quando concebia o Friso da Vida, uma série de quadros sobre o amor, a angústia, o ciúme e a traição que ele foi ampliando ao longo dos anos. O Grito, Desespero, Melancolia, Ciúmes e Ansiedade fazem parte dele. Munch não fazia arte pela arte, segundo o pintor finlandês Akseli Gallen-Kallela, «mas pelo terrível medo que o atormenta»; Joseph Beuys acrescentaria que a arte foi para ele um meio de se libertar desse medo. Essa arte nascida do medo é uma das razões pelas quais ele é considerado um precursor do expressionismo.

Onde ver Ansiedade

No Museu Munch (MUNCH) de Oslo, que desde 2021 ocupa um prédio novo no bairro de Bjørvika e guarda o legado que o pintor deixou à cidade, uma das maiores coleções de um único artista do mundo, com versões de O Grito. As gravuras de 1896 também estão lá e no Museu Folkwang de Essen (Alemanha). Confira no site do museu quais obras estão expostas, porque as obras em exposição vão mudando.

Ficha técnica

TítuloAnsiedade (Angst / Anxiety); exposto pela primeira vez como Nuvens vermelhas
AutorEdvard Munch
Data1894
TécnicaÓleo sobre tela
Dimensões94 × 74 cm
SérieFriso da Vida
LocalizaçãoMuseu Munch, Oslo
Versões gráficasLitografia (1896, 41,3 × 38,8 cm) e xilogravura (1896, 45,5 × 37,2 cm)

Obras relacionadas

Fontes: Wikipédia, «Anxiety (Munch)», «Edvard Munch» e «Munch Museum».

Sobre esta ficha. Redigida por Jorge Torres, editor do Museu Van Gogh, e revisada em setembro de 2026. Fontes: cartas de Vincent van Gogh na edição do Museu Van Gogh e do Huygens Institute (vangoghletters.org), catálogos raisonnés de De la Faille (F) e Hulsker (JH) e a documentação do museu que conserva a obra. Como fazemos as fichas.