A Cadeira de Van Gogh com Cachimbo

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A Cadeira de Van Gogh com Cachimbo (Van Gogh’s Chair) é uma cadeira de palha com um cachimbo e uma bolsa de tabaco sobre o assento, pintada por Vincent van Gogh na Casa Amarela de Arles no fim de 1888 (ele já a descreve a Theo por volta de 19 de novembro) e retocada em janeiro de 1889, quando voltou do hospital. É a metade de um par: a outra metade é A Cadeira de Gauguin, uma poltrona com uma vela e dois livros. Duas cadeiras vazias como retrato de dois homens, pintadas pouco antes de a convivência entre eles explodir. Mede 91,8 × 73 cm e está na National Gallery de Londres; a de Gauguin está no Museu Van Gogh de Amsterdã.

Significado de A Cadeira de Van Gogh: o que representa

Uma cadeira rústica de madeira clara com assento de palha, na diagonal sobre um piso de ladrilhos vermelhos, contra uma parede azul com uma porta verde. Sobre o assento, um cachimbo e uma bolsa de tabaco. Ao fundo, à esquerda, uma caixa baixa com bulbos brotando, provavelmente cebolas, e a assinatura «Vincent». É de dia: a luz entra chapada, sem sombras fortes. A cadeira é uma das doze que Van Gogh comprou em setembro de 1888 para mobiliar a Casa Amarela, a mesma que aparece em Quarto em Arles.

Van Gogh disse a Theo que os dois quadros eram «estudos» de cadeiras, mas os pintou como retratos. A dele é simples, de dia, com os objetos de um homem comum: o cachimbo e o tabaco que o acompanhavam sempre. A de Gauguin é uma poltrona com braços, de noite, com uma vela acesa e romances modernos: o intelectual. A National Gallery, que conserva a de Vincent, resume assim: as duas cadeiras funcionam como «retratos substitutos», naturezas-mortas que representam as personalidades e as ideias artísticas opostas dos dois pintores; o Museu Van Gogh, que conserva a de Gauguin, a chama de «retrato» do amigo ausente.

Contexto: Arles, dezembro de 1888

Gauguin tinha chegado à Casa Amarela em 23 de outubro de 1888. Durante nove semanas os dois pintaram juntos e discutiram pintura, e a tensão foi crescendo. Van Gogh começou as duas cadeiras em meados de novembro, como conta a Theo na carta 721 (por volta de 19 de novembro de 1888): um estudo com «uma cadeira de madeira e palha toda amarela sobre ladrilhos vermelhos contra uma parede», e a de Gauguin, «a poltrona de Gauguin, vermelha e verde, efeito noturno». Cinco semanas depois, na noite de 23 de dezembro, Vincent cortou parte da orelha e Gauguin foi embora para Paris. Segundo a National Gallery, ao voltar para casa depois de duas semanas no hospital, Van Gogh retocou ligeiramente o quadro da sua cadeira. A fase completa está em Arles (1888–1889) e a história dos dois pintores em Van Gogh e Gauguin.

A carta a Theo: dois «estudos» de cadeiras

Na carta 721, Vincent descreve os dois quadros sem lhes dar mais importância que a outros estudos. Fala da sua como «uma cadeira de madeira e palha toda amarela sobre ladrilhos vermelhos contra uma parede (de dia)», e da de Gauguin como «a poltrona de Gauguin, vermelha e verde, efeito noturno, […] no assento dois romances e uma vela»; no original francês, ele acrescenta que a parede e o piso também são vermelhos e verdes. E na carta 736 (17 de janeiro de 1889), já fora do hospital, conta a Theo que voltou ao trabalho, menciona o estudo da poltrona de Gauguin com a vela e os dois romances e fala da «minha própria cadeira vazia, uma cadeira de pinho com um cachimbo e uma bolsa de tabaco». A National Gallery acrescenta que as cadeiras vazias tinham para Vincent um sentido anterior: ele tinha chorado diante da cadeira vazia do pai em 1885 e guardava a gravura The Empty Chair, de Luke Fildes, sobre a morte de Dickens.

Análise: a cadeira como retrato

Dia e noite, amarelo e vermelho

Quase tudo nas duas cadeiras é pensado em oposição. A de Vincent é de dia e amarela, com azul e verde em volta: as cores dos seus girassóis e da sua casa. A de Gauguin é de noite, vermelha e verde, as cores do Café à Noite, as das «terríveis paixões». Uma é de madeira rústica e palha; a outra, estofada e com braços. Van Gogh não escreveu que fossem retratos, mas escolheu cada detalhe como se fossem.

A perspectiva

A cadeira é vista de cima e ligeiramente em escorço, com os pés voltados para o espectador, sobre um piso de ladrilhos que sobe em direção ao fundo, como em Quarto em Arles. Não há ninguém sentado nem ninguém para quem olhar: o ponto de vista é o do próprio Vincent, de pé, olhando para a sua cadeira. É o que transforma o quadro num autorretrato sem figura.

A assinatura e as cebolas

A caixa do fundo, com bulbos germinando, traz a assinatura «Vincent» pintada na madeira, como o vaso dos girassóis. No quadro de Gauguin, por outro lado, o que há é uma vela acesa e dois romances.

Curiosidades

  • Dois museus. As duas cadeiras foram pintadas para ficar penduradas juntas, uma virada para a direita e a outra para a esquerda, mas logo se separaram: a de Vincent foi comprada pelo Courtauld Fund em 1924 e passou da Tate para a National Gallery em 1961; a de Gauguin, Vincent mandou para Theo em abril de 1889, e ela ficou na família até ir para a Fundação Vincent van Gogh. Só se reencontram em exposições temporárias.
  • O cachimbo era o mesmo. Van Gogh fumava cachimbo o tempo todo e se pintou com ele em vários autorretratos, incluindo o da orelha enfaixada, pintado naquele mesmo janeiro de 1889.
  • Doze cadeiras. Segundo a National Gallery, a cadeira pode ter sido uma da dúzia que Van Gogh comprou em setembro de 1888 para mobiliar a Casa Amarela antes da chegada de Gauguin.

Onde ver A Cadeira de Van Gogh

Na National Gallery de Londres, na Trafalgar Square, na sala 43, ao lado de outras obras de Van Gogh do acervo, como Os Girassóis e Campo de Trigo com Ciprestes. A Cadeira de Gauguin está no Museu Van Gogh de Amsterdã. A de Vincent também está nos nossos papéis de parede.

Todas as obras de Van Gogh da National Gallery que têm ficha neste site, com informações para a visita: Van Gogh na National Gallery.

Ficha técnica

TítuloA Cadeira de Van Gogh com Cachimbo (Van Gogh’s Chair)
AutorVincent van Gogh
Data e localArles, novembro–dezembro de 1888 (retocado em janeiro de 1889)
TécnicaÓleo sobre tela
Dimensões91,8 × 73 cm
CatálogosF 498 · JH 1635
LocalizaçãoNational Gallery, Londres (NG3862; adquirido em 1924 com o Courtauld Fund)
PeríodoArles (1888–1889)

Obras relacionadas

Fontes: ficha da obra na National Gallery (NG3862); cartas 721 (a Theo, por volta de 19 de novembro de 1888) e 736 (a Theo, 17 de janeiro de 1889), edição do Van Gogh Museum e do Huygens Institute, vangoghletters.org; ficha de A Cadeira de Gauguin no Van Gogh Museum (s0048V1962); Wikipedia, «Van Gogh’s Chair».

Sobre esta ficha. Redigida por Jorge Torres, editor do Museu Van Gogh, e revisada em setembro de 2026. Fontes: cartas de Vincent van Gogh na edição do Van Gogh Museum e do Huygens Institute (vangoghletters.org), catálogos raisonnés de De la Faille (F) e Hulsker (JH) e a documentação do museu que conserva a obra. Como fazemos as fichas.