Cena de rua em Berlim (1913): as Straßenszenen de Kirchner e a restituição de 2006

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Cena de rua em Berlim (Berliner Straßenszene) é um óleo sobre tela de 121 × 95 cm que Ernst Ludwig Kirchner pintou em 1913. Faz parte do ciclo das Straßenszenen (cenas de rua) que o pintor alemão realizou entre 1913 e 1915, com as Kokotten, as prostitutas das ruas de Berlim, e seus clientes como protagonistas. É o conjunto mais conhecido de sua fase berlinense e um dos pontos altos do expressionismo alemão. O quadro está na Neue Galerie de Nova York desde que, em 2006, depois de uma polêmica restituição aos herdeiros de um colecionador judeu, foi vendido na Christie’s por cerca de US$ 38 milhões, recorde do artista.

O que representa Cena de rua em Berlim

Em primeiro plano, duas prostitutas com roupas muito coloridas, golas de renda elaboradas e chapéus da última moda. Dois clientes as acompanham: um olha para o espectador e o outro, para as mulheres. Ao fundo, uma rua cheia de gente, com uma carruagem e a placa da linha 15 do bonde, um bonde puxado a cavalo que atravessava o centro de Berlim. As mulheres olham de forma provocante para os dois homens; um lhes dá atenção e o outro desvia o olhar. Os dois clientes aparecem cortados pela borda da tela, o que dá a impressão de um instante captado no ar.

As modelos das duas mulheres foram as irmãs Erna e Gerda Schilling; Erna se tornaria a companheira de Kirchner até o fim da vida dele. O modelo dos clientes foi provavelmente seu amigo, o pintor Otto Mueller, embora seja possível que Kirchner tenha retratado a si mesmo.

Significado: a solidão da cidade grande

Kirchner pintou muitas vezes as Kokotten e sua relação com os clientes. O próprio pintor explicou de onde vinham essas obras: «As cenas de rua surgiram nos anos de 1911 a 1914. Foi uma das épocas mais solitárias da minha vida, em que eu vagava dia e noite pelas longas ruas cheias de gente e de carruagens, numa inquietação angustiante».

Esse é o contexto da série. Kirchner, fundador do grupo Die Brücke em Dresden em 1905, tinha se mudado para Berlim em 1911. O grupo se dissolveu em 1913, o mesmo ano em que Kirchner pintou este quadro, e nos dois anos seguintes o pintor realizou a série de Straßenszenen, com as «passeantes» das ruas como personagens centrais.

Análise do estilo

Futurismo e cubismo

No quadro se notam duas influências da vanguarda europeia daqueles anos: a dinâmica apressada, nervosa, da composição vem do futurismo italiano, e a linguagem angulosa das formas é tomada do cubismo. As figuras se alongam, os rostos viram quase máscaras e a rua se inclina em direção ao espectador.

Cor antinaturalista e pincelada visível

Como em seu quadro irmão Rua, Berlim (Straße, Berlin, 1913, MoMA de Nova York), Kirchner usa cores que não imitam a realidade: peles rosadas e alaranjadas, azuis e rosas no cenário, e uma pincelada solta e visível. A perspectiva inclinada e as diagonais opostas criam distorção e uma sensação de movimento agitado. São traços comuns do expressionismo alemão, e em particular de Die Brücke, que havia desenvolvido «um estilo comum caracterizado por composições de áreas planas de cor ininterrupta, uma simplificação radical da forma e o uso de cores brilhantes, sem mistura, aplicadas com fluidez». A dívida com o Matisse fauvista está nas cores puras e nas figuras femininas; a cor e a pincelada de Van Gogh, que haviam impressionado os jovens de Die Brücke, formam o pano de fundo.

História: da coleção Hess à Neue Galerie

O quadro pertenceu ao colecionador judeu Alfred Hess. Sua família teve problemas financeiros depois da crise de 1929 e, em 1936, a obra foi parar na associação artística de Colônia (Kölnischer Kunstverein), onde foi vendida, em circunstâncias pouco claras, ao colecionador Carl Hagemann. Durante décadas esteve exposta no Brücke-Museum de Berlim.

Em 2006, Anita Halpin, neta de Alfred Hess, pediu sua restituição com base na Declaração de Washington de 1998, pela qual a Alemanha se comprometeu a devolver aos herdeiros das vítimas as obras confiscadas durante o nazismo. A cidade de Berlim concordou e o quadro foi leiloado na Christie’s em 2006 por cerca de 30 milhões de euros (cerca de US$ 38 milhões), recorde do artista; quem o comprou foi Ronald Lauder, para a Neue Galerie de Nova York. A reação pública na Alemanha foi muito negativa: discutiu-se se a viúva de Hess tinha sido forçada a vender ou se o fizera por motivos financeiros, e se a Declaração de Washington, que não é juridicamente vinculante, era aplicável. Houve denúncias contra políticos berlinenses, que a promotoria não levou adiante, e ainda há quem peça que o quadro volte ao Brücke-Museum.

Onde ver Cena de rua em Berlim

Na Neue Galerie de Nova York, o museu de arte alemã e austríaca que Ronald Lauder idealizou com Serge Sabarsky. O outro grande quadro da série, Rua, Berlim, fica a poucas quadras, no MoMA, que em 2008 publicou o catálogo Kirchner and the Berlin Street dedicado à série. Outras cenas de rua da série estão em museus alemães.

Ficha técnica

TítuloCena de rua em Berlim (Berliner Straßenszene / Berlin Street Scene)
AutorErnst Ludwig Kirchner (1880–1938)
Data1913
TécnicaÓleo sobre tela
Dimensões121 × 95 cm
SérieStraßenszenen (cenas de rua), 1913–1915
MovimentoExpressionismo alemão (Die Brücke)
LocalizaçãoNeue Galerie, Nova York

Obras relacionadas

Fontes: Wikipédia, «Berlin Street Scene», «Street, Berlin» e «Ernst Ludwig Kirchner».

Sobre esta ficha. Redigida por Jorge Torres, editor do Museu Van Gogh, e revisada em setembro de 2026. Fontes: cartas de Vincent van Gogh na edição do Museu Van Gogh e do Huygens Institute (vangoghletters.org), catálogos raisonnés de De la Faille (F) e Hulsker (JH) e a documentação do museu que conserva a obra. Como fazemos as fichas.