Um Par de Botas (Paris, 1887): os sapatos de Van Gogh que passaram por Père Tanguy

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Um Par de Botas (A Pair of Boots) é um óleo sobre tela de 32,7 × 41,3 cm que Vincent van Gogh pintou em Paris no início de 1887 e assinou «Vincent 87» no canto inferior direito. É um dos quadros de botas velhas que ele pintou na cidade entre 1886 e 1887, aquele que, segundo a Wikipedia, já incorpora as cores complementares e o uso da luz: um par de botas de trabalhador, gastas, uma delas virada ao contrário, sobre um pano azul. Catalogado como F333 / JH1236, pertence ao Museu de Arte de Baltimore (coleção Cone, n.º 1950.302), onde está exposto na ala Cone.

Significado de Um Par de Botas: o que representa

O Museu de Arte de Baltimore resume assim: no início de 1886 Van Gogh chegou a Paris e descobriu a obra dos impressionistas e pós-impressionistas, e pouco depois abandonou a paleta escura de seus primeiros quadros. Entre as naturezas-mortas de seus dois anos na cidade (flores, livros, frutas) há «uma série de representações notavelmente expressivas de botas de trabalhador». Nesta «imagem comovente», um par de botas gastas foi colocado com cuidado sobre um pano azul. Embora ainda um pouco escuro de tom, o quadro mostra a transição de Van Gogh para cores mais claras, que culminaria depois de sua mudança para Arles em fevereiro de 1888.

O significado do tema é o mesmo do resto da série. Segundo o Museu Van Gogh, que conserva a primeira versão, Van Gogh comprou umas botas velhas num mercado de pulgas e andou com elas pela lama até achar que estavam interessantes o bastante para pintá-las; a Wikipedia acrescenta que o quadro pode ter sido uma homenagem ao trabalhador e que o museu sugere também que elas podem ter simbolizado, para o próprio pintor, «sua difícil passagem pela vida». São as botas de um trabalhador, pintadas no lugar de seu dono.

Contexto: das botas escuras de 1886 ao pano azul

A Wikipedia descreve a pequena série de Paris como um resumo da mudança de Van Gogh na cidade: «no espaço de quatro quadros é possível observar a diferença entre o primeiro par de botas de 1886, parecido com alguns de seus quadros de camponeses de Nuenen, e o quadro de 1887, que incorpora cores complementares e contrastantes e o uso da luz». Esse quadro de 1887 é o de Baltimore. As outras três versões de Paris estão em Amsterdã (O Par de Sapatos, 1886, e Um Par de Sapatos, sobre papel) e no Fogg Museum, de Harvard (Três Pares de Sapatos); a de Baltimore completa o grupo. Depois ele voltaria ao tema em Arles, com o par de sapatos do Met (agosto de 1888, F461).

Análise: duas botas e um fundo azul

Uma bota virada ao contrário

Van Gogh dispõe as botas como numa natureza-morta clássica, uma de pé e outra deitada mostrando a sola cravejada, de modo que se vejam ao mesmo tempo o couro enrugado do peito do pé e o desgaste da sola. Hulsker cataloga o quadro justamente como «Um par de sapatos, um deles virado». A composição lembra a da versão de 1886 do Museu Van Gogh; aqui as botas continuam escuras, e é o pano azul do fundo que clareia o quadro.

As complementares

O azul do pano contra os marrons alaranjados do couro é um contraste de cores complementares, a lição que Van Gogh estava aprendendo em Paris naqueles meses com as naturezas-mortas de flores e de frutas. Aqui ele a aplica ao motivo mais humilde que tinha no ateliê, e o resultado é o que descreve o museu de Baltimore: um quadro «ainda um pouco escuro», mas já a caminho da cor de Arles.

História: Tanguy, Vollard e as irmãs Cone

A história do quadro, tal como o museu a documenta, começa na loja de Julien Tanguy, o «Père Tanguy» da rue Clauzel, o vendedor de tintas que aceitava quadros de seus clientes em troca de material e que Van Gogh retratou três vezes. Quando Tanguy morreu, em 1894, seus amigos pintores organizaram no Hôtel Drouot um leilão em benefício da viúva (2 de junho de 1894); estas botas foram o lote 64. Passaram por Ambroise Vollard, o jovem marchand que comprou barato naquela liquidação obras de Cézanne, Gauguin e Van Gogh, e depois pelo colecionador Eugène Blot, que o levou a leilão no Drouot em 1900 (ficou sem vender) e de novo em 1906, com o título Les Souliers. Entre as duas vendas esteve, provavelmente em consignação por conta de Blot, nas mãos de Jos. Hessel em Paris e de Paul Cassirer em Berlim. Depois do leilão de 1906 passou por Alfred Edwards, pela galeria Paul Vallotton de Lausanne e pelo marquês de Biron, em Genebra, e voltou a Vallotton, até que em 3 de setembro de 1927 foi comprado pela médica Claribel Cone, de Baltimore.

Claribel e Etta Cone, médica e pianista, reuniram em seus apartamentos de Baltimore uma das coleções particulares de arte moderna mais conhecidas dos Estados Unidos, com Matisse e Picasso como protagonistas. Com a morte de Claribel em 1929, o quadro passou para Etta, e por seu legado entrou no Museu de Arte de Baltimore em 1949, com toda a coleção Cone, que hoje ocupa uma ala do museu. Desde então viajou para as grandes exposições sobre o pintor: Van Gogh in Arles (Met, 1984), Van Gogh à Paris (Orsay, 1988), a retrospectiva do centenário no Rijksmuseum de Amsterdã (1990), Van Gogh and Gauguin: The Studio of the South (Chicago e Amsterdã, 2001–2002) e Van Gogh in America (Detroit, 2022–2023).

Onde ver Um Par de Botas

No Museu de Arte de Baltimore (Baltimore Museum of Art, Maryland), na ala Cone, galeria 4, segundo a ficha do museu. A entrada geral no museu é gratuita (é preciso reservar um passe gratuito on-line ou no balcão). Você encontra a lista completa em onde ver os quadros de Van Gogh.

Todas as obras de Van Gogh do Museu de Arte de Baltimore que têm ficha neste site, com informações para a visita: Van Gogh no Museu de Arte de Baltimore.

Ficha técnica

TítuloUm Par de Botas (A Pair of Boots; Les Souliers)
AutorVincent van Gogh
DataParis, início de 1887 (assinado «Vincent 87»)
TécnicaÓleo sobre tela
Dimensões32,7 × 41,3 cm
CatálogoF333 / JH1236
LocalizaçãoMuseu de Arte de Baltimore, coleção Cone (n.º 1950.302)
FaseParis (1886–1888)

Obras relacionadas

Fontes: Museu de Arte de Baltimore (ficha 1950.302: texto, proveniência e exposições); Wikipedia, «Shoes (Vincent van Gogh)», «Still life paintings by Vincent van Gogh (Paris)», «Julien Tanguy» e «Cone sisters»; vggallery.com (F333).

Sobre esta ficha. Redigida por Jorge Torres, editor do Museu Van Gogh, e revisada em setembro de 2026. Fontes: cartas de Vincent van Gogh na edição do Museu Van Gogh e do Huygens Institute (vangoghletters.org), catálogos raisonnés de De la Faille (F) e Hulsker (JH) e a documentação do museu que conserva a obra. Como fazemos as fichas.