Retrato de Père Tanguy (1887): o marchand de Van Gogh entre gravuras japonesas

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Retrato de Père Tanguy é um óleo sobre tela que Vincent van Gogh pintou em Paris no outono de 1887, e o mais famoso dos três retratos que fez de Julien Tanguy. Tanguy era o comerciante de tintas de Montmartre que vendia fiado aos artistas jovens e um dos primeiros a pôr quadros de Van Gogh à venda. Tanguy, com seu chapéu de palha e as mãos cruzadas, posa sentado diante de uma parede coberta de gravuras japonesas, as mesmas que eram vendidas na sua loja. Catalogado como F363 / JH1351, o quadro pertenceu a Auguste Rodin e está conservado no Museu Rodin de Paris. Os três retratos, pintados entre o inverno de 1886–1887 e o de 1887–1888, mostram com clareza como a pintura de Van Gogh mudou nos seus dois anos de Paris.

Significado do Retrato de Père Tanguy: o que representa

Tanguy está sentado de frente, rígido e tranquilo, de paletó azul, chapéu de palha e mãos entrelaçadas sobre o colo. Atrás dele não há uma parede, mas um mosaico de gravuras japonesas: acima do chapéu, o monte Fuji; dos lados, atores de kabuki e cerejeiras em flor. Essas gravuras representam a busca de serenidade de Van Gogh, a que ele descreve numa carta à irmã nessa época: «ter essa serenidade tanto quanto possível, mesmo quando se sabe pouco — nada — com certeza, talvez seja um remédio melhor contra todos os males do que o que se vende na farmácia». Para captá-la, ele pinta Tanguy com um caráter calmo e contemplativo; a historiadora Naomi Maurer fala da «tranquilidade icônica de um Buda».

Van Gogh chamava de «ginástica» seus exercícios com cores vivas, que, por meio da experimentação, davam profundidade, harmonia e equilíbrio à sua obra; o quadro, luminoso e com um retratado seguro de si, reflete uma mudança de atitude do pintor. É um retrato duplo: o do homem e o da loja, ou seja, de tudo o que Van Gogh encontrou em Paris.

Quem era Père Tanguy

Julien François Tanguy (Plédran, 1825 – Paris, 1894) era um moedor de tintas que vendia material de pintura e também atuava como marchand. Seu jeito jovial e seu entusiasmo pelos artistas fizeram da sua loja em Montmartre uma das mais queridas de Paris, e lhe valeram o apelido de Père («pai») Tanguy. Dividia sua comida e seu dinheiro com os pintores, mostrava os quadros deles com orgulho e aceitava telas como pagamento pelas tintas, de modo que entrar na sua loja, cheia de quadros impressionistas, era, segundo Émile Bernard, como «visitar um museu»: naqueles anos, era o único lugar de Paris onde se podiam ver quadros de Cézanne. Já a mulher dele era menos generosa e vivia de olho nas contas a receber. Quando ele morreu, em 1894, os amigos organizaram um leilão em benefício da viúva, e Octave Mirbeau lhe dedicou um obituário no L’Écho de Paris. Na morte de Van Gogh, em 1890, Tanguy tinha em seu poder o Autorretrato com a Orelha Enfaixada.

Os três retratos de Tanguy

  • Inverno de 1886–1887 (F263, 47 × 38,5 cm, Gliptoteca Ny Carlsberg, Copenhague): o primeiro, quase todo marrom, com um toque de vermelho nos lábios e de verde no avental. Parece mais um operário do que um marchand: é o Van Gogh recém-chegado da Holanda.
  • Outono de 1887 (F363, Museu Rodin, Paris): o desta ficha, o mais elaborado, com as gravuras japonesas e a cor pura dos impressionistas e dos pontilhistas já assimilada.
  • Inverno de 1887–1888 (F364, 65 × 51 cm, coleção Niarchos): uma segunda versão com gravuras, pintada, segundo Naomi Maurer, numa única sessão de meia hora; Tanguy ficou com ela. Pertenceu depois ao ator Edward G. Robinson e à sua mulher, a pintora Gladys Lloyd Robinson, que a venderam ao armador grego Stavros Niarchos.

Postos lado a lado, os três quadros são um resumo dos dois anos de Paris: do marrom de Os Comedores de Batata ao mundo de cor dos impressionistas, de Seurat e do Japão.

Análise: o Japão como fundo

O fundo plano

As gravuras não são decoração: são o tema. Van Gogh tinha começado a comprar xilogravuras ukiyo-e em Antuérpia em 1885 e em Paris reuniu centenas; de Hiroshige e Hokusai tomou os temas e, sobretudo, o estilo de áreas planas de cor sem sombra. No retrato, a figura de Tanguy se recorta sobre essa parede sem profundidade, como um ator diante de um cenário, e o quadro inteiro vira uma grande gravura.

Vermelho contra verde, laranja contra azul

Em 1887 Van Gogh começou a experimentar com contrastes de cores vivas, vermelho contra verde e laranja contra azul; aqui o azul do paletó e o laranja e o vermelho das gravuras fazem exatamente isso, e as mãos e o rosto, modelados com pinceladas curtas, têm a textura dos autorretratos pontilhistas daquele ano, como o Autorretrato de Chicago.

Um retrato de amigo

Van Gogh não pintava Tanguy como cliente, mas como figura paterna: a frontalidade, a simetria e as mãos cruzadas dão ao retrato uma solenidade de ícone, na linha do que ele tinha feito com os camponeses de Nuenen e do que faria, em Arles, com o carteiro Roulin.

História: da loja de Tanguy a Rodin

A filha de Tanguy vendeu depois o retrato ao escultor Auguste Rodin, que o manteve em sua coleção pessoal. Hoje ele faz parte do acervo permanente do Museu Rodin de Paris.

Onde ver o Retrato de Père Tanguy

No Museu Rodin de Paris, o museu do escultor, que expõe também parte da coleção de pintura que Rodin reuniu. O primeiro retrato está na Gliptoteca Ny Carlsberg de Copenhague e o terceiro numa coleção particular. Você tem a lista completa em onde ver os quadros de Van Gogh.

Todas as obras de Van Gogh do Museu Rodin que têm ficha neste site, com informações para a visita: Van Gogh no Museu Rodin.

Ficha técnica

TítuloRetrato de Père Tanguy (Portrait du père Tanguy / Portrait of Père Tanguy)
AutorVincent van Gogh
DataParis, outono de 1887
TécnicaÓleo sobre tela
Dimensões92 × 75 cm (vggallery.com; o infobox da Wikipedia dá 65 × 51 cm, medidas que coincidem com a versão F364)
CatálogoF363 / JH1351
LocalizaçãoMuseu Rodin, Paris
Outras versõesF263 (1886–1887, Gliptoteca Ny Carlsberg, Copenhague); F364 (1887–1888, coleção Niarchos)
PeríodoParis (1886–1888)

Obras relacionadas

Fontes: Wikipedia, «Portrait of Père Tanguy» e «Vincent van Gogh»; vggallery.com (F363).

Sobre esta ficha. Redigida por Jorge Torres, editor do Museu Van Gogh, e revisada em setembro de 2026. Fontes: cartas de Vincent van Gogh na edição do Museu Van Gogh e do Huygens Institute (vangoghletters.org), catálogos raisonnés de De la Faille (F) e Hulsker (JH) e a documentação do museu que conserva a obra. Como fazemos as fichas.