Três pares de sapatos (Three Pairs of Shoes) é um óleo sobre tela de 49,8 × 72,5 cm que Vincent van Gogh pintou em Paris entre o fim de 1886 e o começo de 1887. Mostra seis botas de trabalho, velhas e gastas, dispostas em diagonal sobre um pano branco: a primeira, à esquerda, com o cano dobrado para fora e o forro claro à mostra; a do centro, de cabeça para baixo, exibindo a sola com seus cravos; as demais, meio desamarradas, com os cadarços pendurados. Catalogado como F332 / JH1234, está nos Harvard Art Museums (Fogg Museum) de Cambridge, Massachusetts (1951.66), na coleção Maurice Wertheim.
Significado de Três pares de sapatos: o que representa
O texto de sala do museu o explica assim: «Pintada num momento em que Van Gogh estava profundamente dedicado à natureza-morta, esta composição foi pintada sobre outra imagem, um grande buquê de flores num vaso. É uma de uma série de cinco pinturas de sapatos do artista. Sua disposição numa linha diagonal dá equilíbrio à cena, enquanto a individualidade brincalhona de cada bota acrescenta um movimento rítmico à composição. Colocados sobre um pano branco, os sapatos funcionam dentro da tradição da natureza-morta, mas o caráter distintivo de cada um, e sua identidade reconhecível como parte da indumentária dos operários parisienses, evoca comparações com o retrato». Ou seja, cada bota tem sua postura e seu desgaste, e o museu as lê quase como retratos.
Van Gogh tinha começado a pintar botas velhas poucos meses antes. O Museu Van Gogh, que conserva um dos primeiros quadros da série, O Par de Sapatos (Paris, setembro–novembro de 1886), lembra que «sapatos gastos eram uma escolha de tema pouco comum para um quadro» e que, segundo um conhecido dele em Paris, Van Gogh comprou um par de sapatos de trabalho velhos num mercado de pulgas e andou com eles pela lama até deixá-los sujos: «só então lhe pareceram interessantes o bastante para pintá-los». Aquele primeiro quadro também foi pintado sobre outra imagem, uma vista do apartamento de Theo; reaproveitar telas era, diz o museu, uma maneira de economizar dinheiro.
Análise: pintura esculpida
A fila em diagonal
Ao contrário dos outros quadros da série, que mostram um só par, aqui Van Gogh multiplica o motivo e o ordena: as seis botas formam uma fila que entra pela esquerda e se afasta em direção ao fundo, todas apontando para a direita, menos a do centro, virada de cabeça para baixo. O fundo é um muro de manchas cinzentas e esverdeadas, sem nada que distraia, e a luz cai de cima sobre o couro preto, tirando brilhos das biqueiras e dos ilhoses. A paleta, de pretos, marrons, cinzas e brancos sujos, ainda lembra a de Nuenen, embora o quadro já tenha sido pintado em Paris.
O empaste
O museu destaca «a singular aplicação da tinta, em especial o empaste escultórico, que dá vitalidade a detalhes como as cabeças dos cravos no salto do sapato central». A descrição da ficha acrescenta que as pinceladas, muito marcadas, «seguem as superfícies de cada forma do quadro, dando aos sapatos um aspecto esculpido». Os cravos da sola central são toques de tinta clara em relevo; os cadarços, linhas finas traçadas com o pincel carregado. O museu conserva também radiografias do quadro, catalogadas como objetos independentes em sua coleção on-line: Van Gogh pintou estas botas sobre uma natureza-morta anterior, «um grande buquê de flores num vaso», segundo a ficha do museu.
História: da família Van Gogh a Harvard
Segundo a ficha de procedência do museu, o quadro teria passado (a ficha marca essas duas etapas com pontos de interrogação) de Vincent para seu sobrinho Vincent Willem e para a mãe deste, Johanna van Gogh-Bonger, que o vendeu no Hôtel Drouot de Paris em 1920. Foi comprado pela galeria de Joseph Hessel e, em 1925, pelo colecionador Marcel Kapferer, que o manteve até 1943. Por meio da Wildenstein, em Nova York, foi adquirido naquele ano por Maurice Wertheim, que o legou ao Fogg Art Museum em 1951 junto com o resto de sua coleção. O quadro tinha sido exposto na grande retrospectiva do Stedelijk Museum de Amsterdã em 1905 e na exposição de Paul Cassirer em Berlim em 1914. A Wikipédia registra outra versão sobre seus primeiros anos: que Van Gogh o entregou em 1886 a seu amigo, o pintor australiano John Russell, em troca do retrato que este tinha feito dele; a procedência oficial do museu não menciona isso e situa o quadro na família Van Gogh até 1920.
Onde ver Três pares de sapatos
Nos Harvard Art Museums de Cambridge (Massachusetts, Estados Unidos), na sala de arte europeia dos séculos XIX e XX dedicada à coleção Maurice Wertheim (nível 1, sala 1220, segundo a ficha do museu). Pelas condições do legado Wertheim, a ficha adverte que o quadro tem fortes restrições de empréstimo. Você encontra a lista completa em onde ver os quadros de Van Gogh.
Todas as obras de Van Gogh dos Harvard Art Museums que têm ficha neste site, com informações para a visita: Van Gogh nos Harvard Art Museums.
Ficha técnica
| Título | Três pares de sapatos (Three Pairs of Shoes) |
|---|---|
| Autor | Vincent van Gogh |
| Data | Paris, 1886–1887 (vggallery.com: dezembro de 1886) |
| Técnica | Óleo sobre tela |
| Dimensões | 49,8 × 72,5 cm |
| Assinatura | «Vincent», incisa na parte inferior central (e «VINCENT» inciso no alto, à direita) |
| Catálogo | F332 / JH1234 |
| Localização | Harvard Art Museums / Fogg Museum, Cambridge (Mass.) (1951.66; legado de Maurice Wertheim, 1951) |
| Fase | Paris (1886–1888) |
Obras relacionadas
- O Par de Sapatos (1886): o primeiro par, no Museu Van Gogh.
- Um Par de Botas (1887): o par de Baltimore.
- Sapatos (1887): o par sobre papelão do Museu Van Gogh.
- Os Sapatos de Van Gogh: todas as versões e seu significado.
- Vaso com margaridas e anêmonas: os buquês de Paris que às vezes acabaram embaixo de outros quadros.
Fontes: ficha da obra (1951.66) em harvardartmuseums.org (texto de sala, descrição, procedência e exposições); ficha de Sapatos (s0011V1962) em vangoghmuseum.nl; vggallery.com (F332); Wikipédia, «Shoes (Vincent van Gogh)» e «Still life paintings by Vincent van Gogh (Paris)».
