Trigal com Ciprestes (setembro de 1889): a versão definitiva, na National Gallery

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Trigal com Ciprestes (A Wheatfield, with Cypresses; Korenveld met cipressen) é um óleo sobre tela de 72,1 × 90,9 cm que Vincent van Gogh pintou em Saint-Rémy-de-Provence em setembro de 1889, confinado em seu quarto do hospital de Saint-Paul-de-Mausole. É a versão definitiva da paisagem que ele havia pintado do natural no fim de junho (hoje no Metropolitan de Nova York): um trigal dourado, um arbusto de oliveira, dois ciprestes altíssimos à direita, os Alpilles azuis ao fundo e um céu de nuvens enroladas. Catalogado como F615 / JH1755, pertence à National Gallery de Londres (NG3861), que o comprou em 1923 com o Fundo Courtauld e o expõe na sala 43.

Significado de Trigal com Ciprestes: o que representa

A National Gallery o resume assim: «Van Gogh pintou várias versões de Trigal com ciprestes durante o verão de 1889, quando era paciente do hospital psiquiátrico de Saint-Paul-de-Mausole (…). Uma primeira versão, que ele descreveu como um estudo, foi pintada no local no fim de junho de 1889. O quadro da National Gallery, terminado em setembro enquanto Van Gogh estava confinado em seu quarto do hospital, é a versão acabada. Ele também fez uma cópia menor para a mãe e a irmã. A paisagem inclui motivos tipicamente provençais, como um campo de trigo dourado, altos ciprestes perenes, um arbusto de oliveira e, como pano de fundo, as montanhas azuis dos Alpilles».

O museu acrescenta que a paisagem tinha para Van Gogh «um significado especial, até simbólico»: o ciclo do trigo, da semeadura à ceifa, era para ele «uma metáfora, baseada na parábola bíblica, da vida e da morte». Quem o diz é o próprio pintor, numa carta à irmã Willemien de 2 de julho de 1889, poucos dias depois de pintar a primeira versão: «Que mais se pode fazer, pensando em todas as coisas cuja razão não entendemos, senão contemplar os trigais? A história deles é a nossa, pois nós, que vivemos de pão, não somos nós mesmos trigo em grande medida, ou pelo menos não deveríamos nos submeter a crescer, sem poder nos mover, como uma planta, em relação ao que nossa imaginação às vezes deseja, e a ser ceifados quando estivermos maduros, como ele?» (carta 785).

«Belo como um obelisco egípcio»

Em 25 de junho de 1889, um mês depois de ser internado, Van Gogh conta a Theo que tem doze telas tamanho 30 em andamento; entre elas, segundo as notas da edição das cartas, está a primeira versão deste trigal. E logo fala das árvores: «Os ciprestes continuam me preocupando, eu gostaria de fazer algo com eles como as telas dos girassóis, porque me espanta que ninguém ainda os tenha feito como eu os vejo. É belo quanto às linhas e às proporções, como um obelisco egípcio. E o verde tem uma qualidade tão distinta. É a mancha escura numa paisagem banhada de sol, mas é uma das notas escuras mais interessantes, a mais difícil de acertar com exatidão que consigo imaginar. Agora é preciso vê-los aqui contra o azul, no azul, melhor dizendo» (carta 783).

Análise: o estudo e o quadro definitivo

Pintado no quarto

Em meados de julho, Van Gogh sofreu uma crise grave e só pôde voltar a pintar no fim de agosto ou no início de setembro. Em setembro, sem sair do quarto, que lhe servia de ateliê, repetiu vários quadros do verão. Em 5 ou 6 de setembro, avisa a Theo que no fim do mês poderá contar com uma dúzia de telas tamanho 30, «mas haverá quase as mesmas duas vezes, o estudo e o quadro definitivo» (carta 800); segundo as notas da edição, um desses pares são os dois Trigais com ciprestes, o do Met (F717) e o de Londres (F615). Em 28 de setembro, comunica o envio: «Trigal com ciprestes, idem», junto com o Trigal, A hera, o Estudo de ciprestes, dois Ceifeiros e As Oliveiras (carta 806). Nessa mesma carta anuncia as telas menores para a mãe e a irmã, entre elas a cópia reduzida deste trigal (F743, 52 × 65 cm, segundo as notas).

Mais estilizado que o original

Segundo a National Gallery, ao pintar a paisagem de novo, Van Gogh pôde fazer esta segunda versão «ligeiramente mais estilizada» que a primeira, em resposta à obra de Gauguin e Bernard, cujo avanço rumo à abstração reforçou sua própria ruptura com o impressionismo. Van Gogh citou também o empaste de Monticelli como influência, embora aqui não tenha aplicado a tinta tão espessa quanto na primeira versão. A Wikipédia acrescenta que a tela londrina foi pintada provavelmente numa só sessão, sobre um desenho prévio a carvão, com retoques posteriores de amarelo e marrom, e que nunca foi reentelada nem envernizada.

O mistral

Van Gogh escreveu sobre pintar ao ar livre sob o mistral, o vento forte e frio do sul da França, e aqui o vento parece animar «não só o trigo e as árvores, mas também as nuvens e até as montanhas distantes». Isso se vê no quadro: as espigas amarelas se inclinam em traços ondulados para a direita; o arbusto de oliveira, de um verde acinzentado, retorce-se em curvas paralelas às do trigo; as nuvens são espirais brancas e azuis que rolam sobre um céu turquesa; e os dois ciprestes, quase negros, sobem retos até a borda superior. Só o pequeno arbusto redondo da direita e as papoulas vermelhas do primeiro plano quebram o movimento. «Essa linha dinâmica e sinuosa», diz a National Gallery, «tem semelhanças com a linha serpentina do Art Nouveau, que surgia naquele momento», embora em Van Gogh ela «nunca seja meramente decorativa, mas usada com fins expressivos».

História

O quadro pertenceu ao escritor Octave Mirbeau, em Paris; passou pelas galerias Alexandre Rosenberg e Bernheim-Jeune ao doutor G. Jebson, de Oslo, e em 1923 foi comprado pelos administradores do Fundo Courtauld por meio da Independent Gallery de Percy Moore Turner. Esteve na Tate Gallery e em 1961 passou à National Gallery. Viajou para as grandes exposições recentes sobre Van Gogh: Van Gogh and Nature (Clark, 2015), Van Gogh’s Cypresses (Met, 2023) e Van Gogh: Poets and Lovers (National Gallery, 2024-2025).

Onde ver Trigal com Ciprestes

Na National Gallery de Londres (Trafalgar Square), sala 43, segundo o site do museu. A primeira versão, pintada do natural em junho de 1889, está no Metropolitan Museum de Nova York, e a cópia pequena para a mãe e a irmã, numa coleção particular. Você encontra a lista completa em onde ver os quadros de Van Gogh.

Ficha técnica

TítuloTrigal com Ciprestes (A Wheatfield, with Cypresses; Korenveld met cipressen)
AutorVincent van Gogh
DataSaint-Rémy-de-Provence, setembro de 1889
TécnicaÓleo sobre tela (sem reentelamento)
Dimensões72,1 × 90,9 cm
CatálogoF615 / JH1755 (primeira versão: F717 / JH1756, Met; cópia pequena: F743 / JH1790)
LocalizaçãoNational Gallery, Londres (NG3861; comprado com o Fundo Courtauld em 1923)
FaseSaint-Rémy-de-Provence (1889–1890)

Obras relacionadas

Fontes: ficha de A Wheatfield, with Cypresses NG3861 (textos, dados, procedência e exposições) em nationalgallery.org.uk; cartas 783, 785, 800 e 806 com suas notas (vangoghletters.org); Wikipédia, «Wheat Field with Cypresses».

Sobre esta ficha. Redigida por Jorge Torres, editor do Museu Van Gogh, e revisada em outubro de 2026. Fontes: cartas de Vincent van Gogh na edição do Museu Van Gogh e do Huygens Institute (vangoghletters.org), catálogos raisonnés de De la Faille (F) e Hulsker (JH) e a documentação publicada por museus e coleções. Como fazemos as fichas.