Lírio (Iris; às vezes também Lírios) é um pequeno óleo de 62,2 × 48,3 cm, pintado sobre papelão fino e montado depois em tela, que Vincent van Gogh fez no jardim do hospital de Saint-Paul-de-Mausole, em Saint-Rémy-de-Provence, por volta de maio de 1889. Mostra uma única flor de lírio violeta, de perto, entre folhas e capim salpicados de flores amarelas. É o estudo de uma única flor que acompanha os famosos Lírios do Getty. Catalogado como F601 / JH1699, pertenceu à irmã do pintor, Wil, e desde 1954 está na Galeria Nacional do Canadá, em Ottawa (n.º 6294).
Significado de Lírio: o que representa
A Galeria Nacional do Canadá explica assim: durante sua estadia voluntária no asilo de Saint-Rémy, Van Gogh «aventurou-se pelos terrenos do hospital, em especial pelo jardim descuidado. O artista se conectou conscientemente com a natureza, porque isso o ajudava a manter o equilíbrio mental e a avançar em sua recuperação. Com este quadro, estudou uma flor de perto». É um estudo do natural, sem composição: uma planta, vista quase rente ao chão.
O museu relaciona esse desejo de pintar «uma única folha de capim» com o amor de Van Gogh pela natureza. A expressão é dele: em setembro de 1888, escreveu a Theo que, ao estudarmos a arte japonesa, «vemos um homem, sem dúvida sábio, filósofo e inteligente, que passa o tempo… com quê? Estudando a distância da Terra à Lua? Não. Estudando a política de Bismarck? Não, ele estuda uma única folha de capim. Mas essa folha de capim o leva a desenhar todas as plantas, depois as estações, os grandes traços das paisagens, por fim os animais e a figura humana» (carta 686). Este lírio solitário, entre o capim, se lê facilmente como uma ilustração dessa ideia.
Lírio e Lírios: dois quadros do mesmo jardim
Van Gogh deu entrada em Saint-Paul-de-Mausole em 8 de maio de 1889 e, em seu primeiro mês ali, pintou quatro telas de tamanho 30 do jardim, entre elas os Lírios que hoje estão no Getty de Los Angeles: um canteiro inteiro de flores azuis (carta 776, por volta de 23 de maio). Este quadro é diferente: uma única flor aberta e vários botões em desenvolvimento. Segundo a Wikipédia, isso permite ordená-los: Lírio teria de ter sido pintado antes de Lírios, em que as flores estão todas abertas e algumas começam a murchar; como os lírios barbados florescem por cerca de três semanas, entre os dois quadros haveria uns dez dias. Além disso, Van Gogh menciona os Lírios a Theo numa carta escrita pouco depois de chegar ao asilo, e este estudo se parece, no estilo e na paleta, com outros quatro estudos do natural datados do fim do período de Arles. Por isso a Wikipédia sugere que Lírio pode ter sido uma das últimas obras pintadas antes da internação. É uma hipótese; a ficha do museu, por sua vez, situa o quadro no jardim do hospital e o data de 1890, e o vggallery.com, em Saint-Rémy, em maio de 1889. Nesta ficha seguimos a datação tradicional de maio de 1889 e registramos as outras.
Análise: uma flor desenhada com o pincel
As folhas como espadas
A descrição do museu é precisa: «as folhas em forma de espada que crescem em volta do caule estão cuidadosamente desenhadas e contornadas com um pincel fluido». Van Gogh não modela as folhas: ele as desenha com linhas de cor, verdes e azuis, contornadas em escuro, como nas estampas japonesas que admirava. A flor, violeta com toques brancos, está no alto, ligeiramente fora do centro, e todo o resto é uma trama de folhas compridas que se cruzam.
Os pontos amarelos
«Os pontos amarelos que representam flores silvestres foram colocados com grande deliberação, e no entanto toda a tela está cheia de vibração», continua o museu. É o contraste de cores complementares (violeta e amarelo) que Van Gogh vinha usando desde Paris. Nos Lírios do Getty, o amarelo está nas flores do fundo; aqui são apenas alguns pontos entre o capim, mas cumprem a mesma função.
História: de Wil van Gogh a Ottawa
Segundo o registro de proveniência do museu, a primeira proprietária do quadro foi Wilhelmina (Wil) van Gogh (1862–1941), a irmã mais nova do pintor, com quem Vincent se correspondia de Arles e de Saint-Rémy. Dela passou à amiga Line Kruysse (1858–1937), segunda esposa de Jacob Herman le Cosquino de Bussy (1848–1917), em Amsterdã, que já aparece como proprietária no catálogo de De la Faille de 1928; o quadro foi emprestado ao Museu Boymans de Roterdã em 1937; foi herdado por C. Kruysse, de Amersfoort, que o expôs na Redfern Gallery de Londres em 1952. A galeria E. J. van Wisselingh de Amsterdã o ofereceu à Galeria Nacional do Canadá em setembro de 1953, e o museu o comprou em 20 de outubro de 1954.
Onde ver Lírio
Na Galeria Nacional do Canadá, em Ottawa (n.º 6294). Os outros lírios de Saint-Rémy estão no Getty e os vasos de 1890, no Museu Van Gogh de Amsterdã e no Metropolitan de Nova York. Você encontra a lista completa em onde ver os quadros de Van Gogh.
Todas as obras de Van Gogh da Galeria Nacional do Canadá que têm ficha neste site, com informações para a visita: Van Gogh na Galeria Nacional do Canadá.
Ficha técnica
| Título | Lírio (Iris; também Lírios) |
|---|---|
| Autor | Vincent van Gogh |
| Data | Saint-Rémy, maio de 1889 (vggallery); o museu o data de 1890 |
| Técnica | Óleo sobre papelão fino, montado em tela |
| Dimensões | 62,2 × 48,3 cm |
| Catálogo | F601 / JH1699 |
| Localização | Galeria Nacional do Canadá, Ottawa (6294; comprado em 1954) |
| Fase | Saint-Rémy-de-Provence (1889–1890) |
Obras relacionadas
- Lírios (Getty): o canteiro inteiro, pintado nesses mesmos dias.
- Lírios sobre Fundo Amarelo: o vaso de maio de 1890.
- Vaso com Lírios (Met): o outro buquê de 1890.
- Ramos de Amendoeira em Flor: outra planta vista de perto, à japonesa.
- Borboletas e Papoulas: outro estudo de capim e flores de Saint-Rémy.
Fontes: ficha da obra em gallery.ca (n.º 6294), com sua proveniência; cartas 686 e 776 (vangoghletters.org); vggallery.com (F601); Wikipédia, «Irises (painting)».
