Dânae de Rembrandt (1636): significado, análise e o ataque de 1985

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Dânae é um óleo sobre tela de Rembrandt concluído por volta de 1636 e muito retocado pelo próprio pintor até 1643, no máximo. Mede 185 × 203 cm e representa, em tamanho natural, Dânae, a princesa da mitologia grega que Zeus visitou na forma de uma chuva de ouro e que foi mãe de Perseu. Pertenceu à coleção do francês Pierre Crozat e desde o século XVIII está no Museu Hermitage de São Petersburgo, onde é um de seus quadros mais célebres. Em 1985, um visitante jogou ácido na tela e a cortou com uma faca; a restauração durou doze anos.

Significado de Dânae: o que representa

Segundo a mitologia grega, o rei Acrísio de Argos, sem herdeiros homens, consultou o oráculo, que lhe anunciou que morreria pelas mãos do filho de sua filha. Para evitar isso, trancou Dânae numa torre de bronze (ou numa caverna, conforme a versão). Zeus, no entanto, chegou até ela transformado em chuva de ouro e a engravidou; o filho, Perseu, acabaria matando o avô sem saber. Outros pintores, como Ticiano, Correggio e Tintoretto, já tinham tratado o mesmo tema, quase sempre como pretexto para um nu feminino.

Rembrandt conta a história de outro jeito. Sua Dânae está deitada numa cama luxuosa, com as cortinas abertas, e se ergue apoiada num cotovelo enquanto levanta a outra mão, como se cumprimentasse ou fizesse um gesto de boas-vindas a alguém que se aproxima. Não há moedas: o que entra é uma luz dourada que banha seu corpo. Presumivelmente ela está recebendo Zeus, presente apenas como luz. Atrás, na sombra, uma criada abre a cortina, e na cabeceira da cama há um cupido dourado que já foi interpretado como símbolo da castidade a que Dânae estava condenada. O quadro se organiza, assim, como um jogo visual entre três personagens: Dânae, a criada e um terceiro que elas veem, mas o espectador não.

Análise: um quadro pintado duas vezes

De Saskia a Geertje

A modelo original foi Saskia van Uylenburgh, a mulher de Rembrandt, com quem ele havia se casado em 1634. Mas pouco depois, após a morte de Saskia em 1642 e, em todo caso, não depois de 1643, Rembrandt voltou ao quadro e trocou o rosto de Dânae pelo de Geertje Dircx, a babá de seu filho Titus e, na época, sua amante. A reelaboração mudou também a posição da cabeça, do braço estendido e das pernas. Por isso a assinatura, difícil de ler, com uma data que termina em «6», pode não ser autêntica: o quadro que vemos é em boa parte o da década de 1640. Além disso, a tela foi bastante recortada.

A luz como protagonista

Como em Tempestade no mar da Galileia, pintada três anos antes, Rembrandt faz da luz o tema do quadro: ela é Zeus, é o ouro e é o que modela o corpo de Dânae contra a penumbra da alcova. Os tons dourados dos lençóis, da pele e do cupido contrastam com a penumbra da alcova. É um nu pouco idealizado para sua época: uma mulher real, num interior holandês luxuoso.

Um quadro que não foi vendido

Já se sugeriu que Rembrandt tinha um apreço especial por esta obra, uma das mais ambiciosas que pintou, e também que seu grande tamanho a tornava difícil de vender. O certo é que a obra ainda estava em seu poder quando ele a repintou, poucos anos depois de terminá-la.

História: de Crozat ao Hermitage

O quadro fez parte da coleção do francês Pierre Crozat e passou para o Hermitage de São Petersburgo nesse mesmo século, o XVIII. Há mais sobre a vida do pintor na biografia de Rembrandt.

O ataque de 1985 e a restauração

Em 15 de junho de 1985, Bronius Maigys, um cidadão soviético da Lituânia que depois foi declarado mentalmente incapaz, jogou ácido sulfúrico sobre a tela e a cortou duas vezes com uma faca. Toda a parte central ficou coberta de manchas, respingos e escorridos de tinta; os danos mais graves atingiram o rosto e o cabelo de Dânae, seu braço direito e as pernas. A restauração começou no mesmo dia: depois de consultar químicos, os restauradores lavaram a superfície com água, mantendo o quadro na vertical e borrifando-o para frear a degradação. O trabalho, a cargo do laboratório de restauração de pintura de cavalete do Hermitage (Ye. N. Gerasimov, A. G. Rakhman e G. A. Shirokov, com T. P. Alioshina na metodologia científica), estendeu-se de 1985 a 1997. Em 2006, o agressor escreveu um livro de 300 páginas com a sua versão; segundo os jornalistas russos que o leram, ele não demonstra arrependimento.

Onde ver Dânae

No Museu Hermitage de São Petersburgo (Rússia), que conserva nove pinturas de Rembrandt. Se você se interessa por Rembrandt, neste site há também A Ronda Noturna e Tempestade no mar da Galileia.

Ficha técnica

TítuloDânae (Danaë)
AutorRembrandt van Rijn
Datac. 1636; retocado até 1643, no máximo
TécnicaÓleo sobre tela
Dimensões185 × 203 cm
TemaMitologia grega: Dânae e a chuva de ouro
LocalizaçãoMuseu Hermitage, São Petersburgo (desde o século XVIII; antes coleção Crozat)
EstadoAtacado com ácido e faca em 1985; restaurado em 1985–1997

Obras relacionadas

Fontes: Wikipédia, «Danaë (Rembrandt painting)» e «Dánae (Rembrandt)»; Museu Hermitage.

Sobre esta ficha. Redigida por Jorge Torres, editor do Museu Van Gogh, e revisada em outubro de 2026. Fontes: cartas de Vincent van Gogh na edição do Museu Van Gogh e do Huygens Institute (vangoghletters.org), catálogos raisonnés de De la Faille (F) e Hulsker (JH) e a documentação publicada por museus e coleções. Como fazemos as fichas.