O Semeador é um dos temas que acompanharam Vincent van Gogh a vida inteira: ele fez mais de trinta desenhos e pinturas de um camponês semeando, sempre a partir de O Semeador de Jean-François Millet (1850). Em Arles, em 1888, pintou-o quatro vezes; as três mais conhecidas trazem o sol no horizonte (a quarta, de outubro, com «a figura pequena e borrada» numa paisagem plana, está em Winterthur, F494). A versão grande de junho está no Museu Kröller-Müller; as duas de novembro, com uma árvore que corta o quadro, estão na Coleção Bührle de Zurique (a grande) e no Museu Van Gogh de Amsterdã (a pequena, de 32,5 × 40,3 cm). Esta ficha explica o que o tema significava para ele, como pintou cada versão e o que disse delas nas cartas.
Significado de O Semeador: o que representa
Um camponês atravessa a passos largos um campo arado, lançando a semente com o braço estendido, enquanto um sol enorme se põe ou nasce no horizonte. Para Van Gogh o semeador era uma figura quase religiosa. Na juventude, quando quis ser pregador, ele havia ensinado a parábola do semeador, e a ideia da vida como «tempo de semeadura» cuja colheita «não está aqui» aparece em seus textos dessa época. Quando decidiu ser pintor, copiou repetidas vezes o semeador de Millet, o pintor de camponeses que sempre admirou: o Kröller-Müller fala de dezenas de desenhos a partir desse modelo. O Museu Kröller-Müller resume assim: o camponês que semeia a terra representa também quem semeia a palavra de Deus, e o trigo maduro que se vê atrás dele fala do ciclo da natureza e da vida.
Em Arles esse tema antigo se transformou num problema de cor. Van Gogh escreveu a Theo em 21 de junho de 1888 (carta 629): «há muito tempo meu grande desejo é fazer um semeador», mas «depois de Millet e Lhermitte, o que resta a fazer é… o semeador, com cor e em grande formato». Como resume o Kröller-Müller, ele não queria a versão escura, cinzenta e quase sem cor de Millet, e sim a mesma figura com cores radiantes e contrastes fortes.
As três versões de Arles
Junho de 1888: o semeador do Kröller-Müller
A primeira versão (64,2 × 80,3 cm, F422 / JH1470) foi pintada na segunda metade de junho, depois de «uma semana de trabalho duro e concentrado nos trigais, em pleno sol», como ele escreveu a Theo (carta 629). Descreveu-a a Bernard com um croqui (carta 628): «um grande campo de torrões de terra arada, na maior parte francamente violeta; um campo de trigo maduro, num tom ocre amarelo com um pouco de carmim; o céu amarelo de cromo, quase tão brilhante quanto o próprio sol», o semeador de blusa azul e calça branca. E acrescenta que pouco se importava com «a veracidade da cor»: preferia «ingênuas figuras de almanaque», em que o tempo é representado de forma totalmente primitiva. A Theo confessou que o esboço o preocupava muito: perguntava-se se não deveria levá-lo a sério «e fazer dele um quadro tremendo». Segundo a ficha do Kröller-Müller, toda a atenção fica com o campo de torrões, pintado com tinta espessa azul-violeta e laranja, quase em relevo, e o sol domina a cena como fonte eterna de luz e energia.
Novembro de 1888: o semeador com árvore
Cinco meses depois, com Gauguin já morando na casa amarela, Van Gogh voltou ao tema com uma composição nova: um tronco de árvore atravessa o quadro na diagonal, o semeador caminha para a direita e o sol é um disco enorme bem atrás da sua cabeça. Ele contou isso a Theo por volta de 21 de novembro (carta 722): «outro semeador. Um imenso disco amarelo-limão como sol. Céu verde-amarelo com nuvens cor-de-rosa. O campo é violeta, o semeador e a árvore, azul da Prússia». É uma tela nº 30 (73 × 92 cm, F450 / JH1627), hoje na Coleção Bührle, exposta no Kunsthaus Zürich. Jo van Gogh-Bonger deu-a de presente em 1890 ao escritor Frederik van Eeden, e em 1891 foi exposta em Bruxelas com Les XX. Gauguin insistia para que ele pintasse menos a partir da realidade e mais a partir da imaginação, e este quadro, com seu sol desmedido e sua árvore de gravura japonesa, costuma ser lido como resposta a esse conselho.
A versão pequena do Museu Van Gogh
A terceira (32,5 × 40,3 cm, F451 / JH1629) repete a composição da árvore em formato pequeno. Durante muito tempo se pensou que fosse o estudo preparatório do quadro grande, mas o exame técnico mostrou que Van Gogh a pintou depois, como uma repetição reduzida (é o que indicam as notas da carta 722 na edição do Museu Van Gogh). Segundo a ficha do museu, aqui ele usou cores «destinadas a expressar emoção e paixão», com os papéis principais para o amarelo esverdeado do céu e o violeta do campo, e «o sol amarelo brilhante parece uma auréola, que transforma o semeador num santo».
Análise: Millet com cor
O sol como auréola
Nas três versões o sol é um disco amarelo enorme, e nas de novembro está exatamente atrás da cabeça do semeador, como o nimbo de um santo num ícone. A figura do semeador tinha para ele um sentido religioso, e o museu lê esse sol como uma auréola que transforma o semeador num santo.
Violeta contra amarelo
O par de complementares que organiza o quadro é o de amarelo e violeta: céu e sol amarelos contra campo violeta, com o azul do semeador e o laranja dos torrões como segundo par. É a mesma lógica de O Café à Noite (vermelho e verde) e de Terraço do Café (amarelo e azul), aplicada ao campo. Na carta 628 ele diz sem rodeios: há «muitas repetições de amarelo na terra», tons neutros que resultam da mistura de violeta com amarelo.
A árvore japonesa
O tronco que atravessa na diagonal as versões de novembro, cortado pela borda do quadro, é um recurso das gravuras japonesas que Van Gogh colecionava, o mesmo que ele usaria meses depois em Ramos de Amendoeira em Flor. Ele rompe a composição clássica de Millet (figura centralizada, horizonte baixo) e a transforma numa imagem moderna.
Onde ver O Semeador
A versão de junho está no Museu Kröller-Müller de Otterlo (Países Baixos), que a mantém exposta. A versão pequena de novembro está no Museu Van Gogh de Amsterdã, atualmente exposta; a grande, na Coleção Bührle, no Kunsthaus Zürich. Os dois museus holandeses podem ser combinados numa mesma viagem; se você for a Amsterdã, tem o guia do Museu Van Gogh e a página de ingressos.
Todas as obras de Van Gogh do Museu Van Gogh que têm ficha neste site, com informações para a visita: Van Gogh no Museu Van Gogh.
Ficha técnica (versão do Museu Van Gogh)
| Título | O Semeador (The Sower / De zaaier) |
|---|---|
| Autor | Vincent van Gogh |
| Data | Arles, novembro de 1888 |
| Técnica | Óleo sobre tela |
| Dimensões | 32,5 × 40,3 cm |
| Catálogo | F451 / JH1629; nº de objeto s0029V1962 |
| Localização | Museu Van Gogh, Amsterdã (Fundação Vincent van Gogh) |
| Outras versões | Junho de 1888, 64,2 × 80,3 cm, Museu Kröller-Müller (F422); novembro de 1888, 73 × 92 cm, Coleção Bührle, Zurique (F450) |
| Fase | Arles (1888–1889) |
Obras relacionadas
- O Semeador ao Pôr do Sol (desenho): desenho relacionado com esta obra.
- O Semeador ao Pôr do Sol: a versão de junho do Kröller-Müller.
- Os Comedores de Batata: os camponeses de Nuenen, antes da cor.
- Campo de Trigo com Ciprestes: o trigo um ano depois, em Saint-Rémy.
- Campo de Trigo com Corvos: o último trigal.
- O estilo de Van Gogh: as cores complementares e a influência japonesa.
Fontes: ficha da obra no Museu Van Gogh (s0029V1962) e no Museu Kröller-Müller; cartas 628, 629 e 722 e suas notas, edição do Van Gogh Museum (vangoghletters.org); Wikipédia, «Wheat Fields (Van Gogh series)», «The Sower (Millet)» e «Foundation E.G. Bührle»; ficha da obra em buehrle.ch.
