O Jardim do Poeta (Arles, 1888): o parque de Arles pintado para o quarto de Gauguin

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O Jardim do Poeta (The Poet’s Garden) é um óleo sobre tela de 73 × 92,1 cm que Vincent van Gogh pintou em Arles em setembro de 1888. Mostra um canto do jardim público da cidade: um gramado recém-aparado com uma árvore de galhos pendentes, arbustos de cedro aparados em forma redonda, uma espirradeira e, ao fundo, sob um céu amarelo-limão, um passante. Van Gogh o pintou como decoração para o quarto que preparava para Paul Gauguin na Casa Amarela e o batizou pensando em Petrarca, o poeta de Avignon. Catalogado como F468 / JH1578, está no Art Institute of Chicago (1933.433), exposto na galeria 241.

Significado de O Jardim do Poeta: o que representa

Van Gogh o descreveu a Theo em 16 de setembro de 1888, véspera de sua mudança para a Casa Amarela, como o primeiro quadro da semana: «uma tela quadrada de 30 de um canto de jardim com uma árvore-chorona, grama, arbustos de cedro aparados em forma redonda, um arbusto de espirradeira. Portanto, o mesmo canto de jardim do qual você já tem um estudo na última remessa. Mas, como é maior, há um céu cor de limão sobre tudo isso, e as cores têm a riqueza e as intensidades do outono. Além disso, é feito com um empaste muito mais pesado, liso e espesso» (carta 681). Os outros dois quadros daquela semana foram o Terraço do Café à Noite e o autorretrato «quase sem cor» dedicado a Gauguin.

Dois dias depois, contou a Theo de onde vinha o título. Tinha lido um artigo sobre os poetas e pintores do início do Renascimento italiano, e «Petrarca estava bem aqui perto, em Avignon, e eu vejo os mesmos ciprestes e espirradeiras. Tentei pôr algo disso num dos jardins, pintado com empaste espesso, amarelo-limão e verde-limão» (carta 683). Em 26 de setembro, insistia: «não é verdade que este jardim tem um estilo curioso, que faz com que se possam imaginar muito bem os poetas do Renascimento, Dante, Petrarca, Boccaccio, passeando entre estes arbustos sobre a grama florida?» (carta 689). O jardim público de Arles, «sem nada de especial», transformava-se assim num jardim de poetas.

A decoração para Gauguin

O quadro fazia parte da decoração da Casa Amarela e, mais precisamente, do quarto de Gauguin. Van Gogh escreveu isso ao próprio Gauguin em 3 de outubro de 1888: «Para o quarto onde você vai ficar, fiz uma decoração especialmente, o jardim de um poeta. O jardim público, sem nada de especial, contém plantas e arbustos que fazem sonhar com paisagens nas quais se imagina facilmente Botticelli, Giotto, Petrarca, Dante e Boccaccio. Na decoração, tentei extrair a essência do que constitui o caráter imutável da região. E eu teria gostado de pintar este jardim de tal maneira que se pensasse ao mesmo tempo no velho poeta deste lugar (ou melhor, de Avignon), Petrarca, e em seu novo poeta, Paul Gauguin» (carta 695).

Segundo as notas da edição das cartas, «o jardim do poeta» era então um par de telas: esta e outro quadro do mesmo parque, hoje desconhecido, com «um arbusto redondo de cedro ou cipreste», que Van Gogh considerava seu pendant e do qual restam croquis nas cartas a Theo e a Eugène Boch. Mais tarde, juntaram-se a elas mais dois quadros com casais passeando (F479 e F485). Com esta tela, Van Gogh pintava aquele canto pela segunda vez, depois do estudo F428 que Theo já tinha; a terceira foi o pendant do arbusto redondo, sobre o qual diz na carta 689 que havia tirado algumas árvores e os arbustos «que não tinham caráter» para encontrar «seu caráter mais verdadeiro e fundamental».

Análise: amarelo-limão sobre verde

O céu amarelo

A primeira coisa que se vê é o céu: uma faixa amarelo-limão, plana e densa, que Van Gogh usa como fundo no lugar de um céu real. Contra ele, a árvore-chorona do centro, de um verde azulado, deixa cair seus galhos como uma cortina, e os arbustos de cedro, aparados em bolas, se escalonam para a direita. O gramado, «recém-aparado», é um tapete de verdes com toques amarelos e rosados; um passante minúsculo, ao fundo, dá a escala.

Empaste «liso e espesso»

Van Gogh ressalta na carta 681 que o quadro foi feito «com um empaste muito mais pesado» que o estudo anterior. É o modo de pintar daquele verão em Arles, o dos Girassóis de agosto: tinta espessa, aplicada com segurança, em que cada pincelada fica à vista. Por isso pedia a Theo que não o fizesse enviar os quadros antes que estivessem «secos como um osso».

História: de Jo van Gogh-Bonger a Chicago

Segundo a ficha de procedência do Art Institute, o quadro pertenceu a Jo van Gogh-Bonger, a cunhada do pintor, e passou por uma galeria de Roterdã (a ficha do AIC a chama de «Odenzeel») e pela galeria d’Audretsch de Haia. M. Gieseler, de Haia, o vendeu em leilão em Amsterdã em outubro de 1925. Por meio das Howard Young Galleries de Nova York, foi comprado pela colecionadora de Chicago Annie Swan Coburn, que já o tinha em 1928 e o legou ao museu em 1933. Segundo a mesma ficha, havia sido exposto em Copenhague em 1893 e na itinerância de arte francesa moderna organizada por Julien Leclercq pela Escandinávia em 1898. Van Gogh o enviou a Theo, com uma moldura de nogueira, em maio de 1889, segundo as notas da carta 683.

Onde ver O Jardim do Poeta

No Art Institute of Chicago, na galeria 241, ao lado de Quarto em Arles e do Autorretrato de 1887. Você encontra a lista completa em onde ver os quadros de Van Gogh.

Todas as obras de Van Gogh do Art Institute of Chicago que têm ficha neste site, com informações para a visita: Van Gogh no Art Institute of Chicago.

Ficha técnica

TítuloO Jardim do Poeta (The Poet’s Garden; The public garden («The poet’s garden»))
AutorVincent van Gogh
DataArles, setembro de 1888
TécnicaÓleo sobre tela
Dimensões73 × 92,1 cm
CatálogoF468 / JH1578
LocalizaçãoArt Institute of Chicago (1933.433; Mr. and Mrs. Lewis Larned Coburn Memorial Collection)
FaseArles (1888–1889)

Obras relacionadas

Fontes: ficha da obra em artic.edu (1933.433), com sua procedência; cartas 681, 683, 689 e 695 com suas notas (vangoghletters.org).

Sobre esta ficha. Redigida por Jorge Torres, editor do Museu Van Gogh, e revisada em setembro de 2026. Fontes: cartas de Vincent van Gogh na edição do Museu Van Gogh e do Huygens Institute (vangoghletters.org), catálogos raisonnés de De la Faille (F) e Hulsker (JH) e a documentação do museu que conserva a obra. Como fazemos as fichas.